quarta-feira, 20 de outubro de 2021

DUNA – a profundeza dos sonhos de Villeneuve | CRÍTICA

 

A nova adaptação de Duna é primorosa. É como se não houvesse precedentes, mesmo diante da existência da versão de David Lynch e do projeto nunca filmado de Alejandro Jodorowsky (El Topo). Literatura complexa para alguns a julgar por seu tomo de detalhes tal como o “O Senhor dos Anéis”, parecia até que somente um cineasta em progressão como Denis Villeneuve estava predestinado a dirigir esta nova versão considerando a sua visão criativa e condução impactante atestadas numa filmografia distinta praticamente isenta de falhas. De sua fidelidade às vertentes oníricas e místicas aos contextos geopolíticos que Frank Herbert soube tão bem antever, o diretor canadense projeta um épico audacioso como há tempos não assistíamos.

Concentrando-se na primeira parte do livro original da saga escrita por Herbert, com o roteiro trabalhado por Villeneuve em conjunto com os roteiristas Jon Spaihts e Eric Roth, Duna trata de enfatizar tudo o que o que será essencial para o entendimento de sua trama, todavia o seu lado esotérico possa ser estranho a muitos. Situada daqui a oito milênios, a humanidade prosperou pelo universo e estabeleceu um império galáctico, com estruturas políticas em regime monárquico e religiões que abraçaram clarividências e outros misticismos. Tudo circundando a especiaria mélange e, daí, as sequelas em analogia com aquelas estudadas sobre a colonização de séculos atrás. Ao contrário do roteiro da obra de Lynch, a narrativa aqui toma o cuidado de não se tornar expositiva em demasia – e é válido apontar como Villeneuve traduz esses conflitos de forma sucinta, entretanto, passível de o espectador pressupor que é feito pouco caso do elenco.

(© Warner Bros Pictures/Legendary/Divulgação)


Acima de todos os meus receios, Timothée Chalamet está perfeitamente dedicado como Paul Atreides. Seu semblante ainda jovem e porte físico magro evidenciam como um herói não precisa ter porte atlético para encarar os desafios da sua jornada, valendo, então, de sua destreza e da busca por conhecimento, seja com seus mentores, pelos bibliofilmes ou nos estranhos sonhos que tem com os locais e a gente de Arrakis. A moderação no tom de voz de Chalamet também é outro ponto curioso, ainda mais quando o rapaz demonstra uma fala receosa e gentil de início para, depois, assumir a convicção que se pede do personagem.

  

(© Warner Bros Pictures/Legendary/Divulgação)


É impossível não falar de todo o elenco cuja escalação, aliás, é indefectível. Da Casa Atreides, com o Duque Leto (Oscar Isaac), Lady Jessica (Rebecca Ferguson), Duncan Idaho (Jason Momoa) e Gurney Halleck (Josh Brolin), ao clã dos fremen contando com Zendaya como Chani e Javier Bardem como Stilgar e, sem se esquecer da temível dinastia do Barão Harkonnen (Stellan Skarsgård) e seu sobrinho Rabban (Dave Bautista), todos estão ótimos. Os figurinos de Jacqueline West (A Lei da Noite, O Regresso) é outro destaque que potencializa as atuações, ainda mais quando tecidos e materiais vem muito a dizer sobre  cada personagem (até mesmo figurantes recebem indumentárias fascinantes) considerando que nem todos têm o mesmo tempo de tela uma vez que a narrativa é tão atrelada ao ponto de vista protagonista. 

Daí a sensação de que o Thufir Hawat de Stephen McKinley Henderson, o Dr. Yueh de Chang Chen e, numa válida mudança de gênero, a Dra. Liet Kynes (Sharon Duncan-Brewster) são pouco aproveitados no final. Não que isso seja algo negativo (o que está em jogo é fazer a montagem de 150 minutos ser aprazível), mas é uma pena ver que a pauta ecológica tão defendida por Kynes nos capítulos do livro seja enxugada.


(© Warner Bros Pictures/Legendary/Divulgação)


Villeneuve retoma e traz para Duna o que havia de mais ilustre em seus filmes anteriores, principalmente Sicario, A Chegada e Blade Runner 2049. Se o primeiro resgata a crueldade ríspida de combatentes e invasores, enquanto o último demonstra que todo aquele futuro urbano distópico era só um início na progressão de escala que o diretor se propõe aqui mesmo com um deserto (são não menos que suntuosas as edificações e demais cenários arranjados pelo designer de produção Patrice Vermette e equipe de direção de arte), é logo aquele longa com Amy Adams que, talvez, mais influencia no conceito da montagem. Do escopo grandioso das locações naturais, passagens de sonhos se dão com detalhes e expressões belas captadas pelo diretor de fotografia Greig Fraser (Batman, Rogue One) e a edição de Joe Walker repete o seu modo de inserir tais sequências que anteveem o futuro, sem contar  a intensidade da tensão dos conflitos causada pela latência das ações nos planos. Seja nas apreensivas aparições de Shai-Hulud ou num bombardeio por naves inimigas, ainda há espaço para que tais incidentes sejam fulminantes tal como as melhores reviravoltas dos filmes do diretor.


Um chamado rítmico à Voz do Exterior 

 
(© Warner Bros Pictures/Legendary/Divulgação)



Ao longo da narrativa, é recorrente a fala "Lisan al-Gaib" entre a população fremen direcionada a Paul e que o mesmo seja cobrado pela mãe e pela Reverenda Madre Gaius (Charlotte Rampling) no uso da Voz como uma habilidade de comando. Sendo assim, Duna não seria impactante se não tivesse um apreço tão crucial ao seu aspecto sonoro, seja em efeitos ou até mesmo com a trilha sonora de Hans Zimmer. Desse realce musical que amplifica o que há de épico e místico em tela com uma percussão que percorre todas as caixas de som aliada a vocais femininos exóticos, entre outros elementos hipnotizantes, o público vai prender a atenção toda a vez em que retumbantes vozes moduladas soam tão fortes e de forma tão estranha. Alienígena por direito.


(© Warner Bros Pictures/Legendary/Divulgação)


Logo quando a obra de Frank Herbert serviu de consecutivas inspirações para criadores e suas franquias milionárias, Duna (Dune, no original) encontra agora a sua identidade cinematográfica e seu poder de fala. Seus momentos de aventura espacial e até a mecânica das naves destoam do que vimos em Star Wars e, todavia seja quase carente de afeto, é inegável que a sua decisão de encerrar sem um clímax grandioso o aproxime de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, cujo desfecho "em aberto" já era motivo de queixa por alguns vinte anos atrás. De suas projeções dos vislumbres de um futuro (de produção ainda não garantida), espera-se que o restante da saga de Paul Atreides não seja apenas um sonho guardado na mente de seu realizador.  




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