quarta-feira, 13 de outubro de 2021

O Último Duelo | CRÍTICA

 

Ver Ridley Scott voltando para a Idade Média passados 1492, Cruzada e Robin Hood poderia ser até taxado como um retrocesso criativo, ainda mais quando o cineasta gosta de tornar épico (ou supérfluo?) quase tudo o que toca a ponto de perder a integridade narrativa em prol do mero espetáculo. Curiosamente (e ao contrário do que eu esperava), O Último Duelo demonstra um diretor excepcionalmente lúcido ao retratar um tema cujas contestações eram quase que impensáveis há mais de 600 anos.

Contando com Matt DamonBen Affleck e Nicole Holofcener na produção e no roteiro adaptando o livro homônimo escrito por Eric Jager, uma das impressões que temos ao assistir à primeira hora de O Último Duelo é que Ridley Scott encontrou nesta história real um Game Of Thrones para chamar de seu. Nos idos de 1386, aproximadamente, a França vivia sob o reinado do juvenil Carlos VI, mas era uma época de constantes disputas territoriais chefiadas por condes gananciosos que não omitiam seus gostos fartos, ansiando por mesas fartas de ouro, comidas e mulheres. Traições de várias circunstâncias eram  muito que comuns e preservar a integridade, pois bem, nem parecia coisa de nobreza.


(© 20th Century Studios/Reprodução)


Saber mais do que se trata a história compromete a experiência dada nos capítulos trazendo os pontos de vista de Jean de Carrouges (Damon), Jacques Le Gris (Adam Driver) e Marguerite (Jodie Comer), peça crucial entre as perspectivas. Enquanto que, no primeiro capítulo, assistimos a sequências de batalhas cujas decupagens parecem ser meio que recicladas daquelas de Gladiador, porém com mais sangue, nos demais, acompanhamos a relação de amizade Jacques com o libertino conde Pierre (Affleck, numa performance admirável!) e seus jogos cobiçosos. Da parte de Marguerite, temos uma série de incidentes que reimaginam o sufoco de ser mulher num período onde os direitos dificilmente estão a seu favor.

(© 20th Century Studios/Reprodução)


Novamente com a direção de fotografia de Dariusz Wolski, Scott mergulha a França sobre um clima nublado intenso e as cenas à luz de velas têm um resultado impressionante, realçado também com o crepitar das lareiras nos castelos. Falar da fotografia é também discutir a mise-en-scène do diretor em sua transcrição dos três capítulos, mais especificamente, os dois últimos. Enquanto planos próximos de uma viscondessa que pouco fala, mas diz muito com seu olhar repreensivo, a angulação e movimentação colaboram para a delimitação dos pontos de vista. Diferente da prepotência dos filmes sobre o caso von Richthofen que pouco ou nada justificavam sua necessidade de cisão, aqui, uma mínima ação com ares de brincadeira de "pega-pega" inexiste no capítulo seguinte, dando ao espectador a noção de que, se tal conflito não aparece no ato derradeiro, é porque ele provavelmente não aconteceu no fim das contas.



Desse quebra-cabeça que vai se juntando na cabeça do público, que há de notar alguns planos dúbios, mas há de se revoltar como o assunto era tratado naquela era e que, por vereditos vexaminosos, ainda dá brechas para criminosos escaparem impunes mesmo recentemente, O Último Duelo é um filme de grandes atuações não só dadas pelo pico de emoções de Adam Driver muito bem conhecidas de História de um Casamento e de seus Star Wars, mas pela resiliência que Jodie Comer conseguiu imprimir em seu papel de dama. Ridley Scott, vejam só, ainda sabe fazer bons filmes!



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