sábado, 30 de maio de 2020

Duna …uma estranha especiaria de David Lynch | CRÍTICA

Kyle MacLachlan em Duna (1984)

Mais do que um nome, David Lynch virou sinônimo para um tipo de arte que circunda o cotidiano com um olhar jocoso, mas que, por acasos, passa a adentrar (muitas vezes sem volta) em trevas sufocantes e perturbadoras, culminando em realidades paralelas que personificam a morbidez e outros agouros da humanidade. De suas pinturas a curtas bizarros, passando pelo tumultuado Eraserhead e o cultuado O Homem Elefante, anos antes de radicalizar a TV com Twin Peaks e lançar produções cada vez mais autorais e incomuns no cinema, Lynch se viu destinado a embarcar na adaptação da interplanetária e mística obra-prima de Frank Herbert que, apesar de pouco ter os traços artísticos do cineasta, estranhamente, foi um divisor de águas em sua carreira.

Antes de quaisquer considerações, é preciso traçar um breve histórico. No início de 1981, David Lynch conquistou 8 indicações para o Oscar e 3 prêmios no BAFTA com O Homem Elefante, o que despertou o interesse de muitos figurões na indústria que queriam colocar alguém com tamanha personalidade e apreço ao surreal em produções de fantasia como a década viria a ser reconhecida. Não tardou para que George Lucas entrasse em contato com o artista para encarregá-lo de dirigir O Retorno de Jedi, o encerramento da trilogia Star Wars, mas conta Lynch que seu interesse era mínimo. De uma oportunidade perdida, outra viria a convite do renomado produtor executivo Dino de Laurentis, que até então, já tinha produzido vários filmes de Sidney Lumet e Federico Fellini, bem como os duvidosos Flash Gordon Conan, o Bárbaro.

Kyle MacLachlan e Francesca Annis em Duna (1984)
(IMDb/Reprodução)

Duna, pois bem, segue o embalo de uma leva de filmes que visavam adaptar os célebres romances de ficção-científica lançados nas décadas anteriores, bem como possui o mesmo azar de ter problemas na pós-produção e não conquistar o público. Roteirizado pelo próprio David Lynch, é possível dizer que a transcrição do livro para o roteiro é majoritariamente fiel aos eventos e até mesmo ao andamento conferido originalmente por Herbert. Boa parte dos diálogos parece recém lida do livro pelos atores com um toque de espontaneidade, entretanto, pouco a pouco, os diversos voice overs que expõem os pensamentos dos personagens vai se tornando algo maçante combinados com a trilha assinada pela banda TOTO que, embora tenha momentos dedicados a tornar emblemática a aventura futurista, se aproxima do clima etéreo e melancólico das icônicas músicas de Vangelis para Blade Runner.

Max Von Sydow e Patrick Stewart em Duna (1984)
(IMDb/Reprodução)

São visíveis outras inspirações da distopia urbana de Ridley Scott no épico de Lynch além da escalação de Sean Young. Alguns fundos em matte-painting remetem ao visual cyberpunk, que também fornece traços para a caracterização da dinastia dos Harkonnen. Ainda que não sejam dos mais esteticamente interessantes, boa parte dos cenários reflete a aridez que permeia Arrakis, quase isentos de conforto ou asseio propício para um planeta com finalidades de extração da especiaria mélange. Os efeitos especiais são competentes pra época, sobretudo nas cenas dos vermes gigantes, ainda que o mesmo não possa ser dito sobre aqueles quadriláteros escudos de duelo feitos por computação gráfica – algo que, por si só, é capaz de deixar o espectador em certo apuro.

Kyle MacLachlan e Everett McGill em Duna (1984)
(IMDb/Reprodução)

Munido de um elenco admirável para a época (Max Von SydowPatrick StewartBrad DourifVirginia Madsen) além dos frequentes colaboradores de Lynch, vide Kyle MacLachlan como Paul Atreides, Jack Nance e Everett McGill (todos estariam reunidos em Twin Peaks), a impressão é que os atores não podem ir além do que o texto permite, rendendo em atuações travadas (não que o restante da filmografia de Lynch tenha uma movimentação efusiva). Curiosa também é adição de Sting na pele do antagonista Feyd Rautha. Por vezes destacado nas artes promocionais, acaba que o cantor do The Police não tem muito a fazer senão exibir um físico torneado para ser um adversário mortal para Atreides, restando a dúvida se boa parte do desenvolvimento do vilão foi contido na ilha de edição. Aliás, praticamente todo o terço final do longa é movido a uma pressa incomum para encerrar o treinamento de Muad'Dib e seu convívio entre os fremen, drenando quase todo o teor místico dessas passagens.

Sting em Duna (1984)
(IMDb/Reprodução)

Fracasso assumido pelo próprio realizador, Duna (Dune, no original) não é ruim, mas pode ser tedioso e maçante mesmo para os mais atentos. O que pode ser visto como um bom resumão para aqueles que se empenharam na leitura do seu original (e que eu recomendo demais!), o filme reserva alguns pares de boas sequências oníricas que Lynch viria a melhorar nos anos à frente. Em seu contato com a especiaria que, na narrativa, sobrepõe a cor dos olhos com uma pigmentação azulada, o diretor encontrou uma moeda de troca para realizar um projeto dos seus sonhos e que viria a lhe atribuir toda a reverência que tem direito. Um Veludo Azul que também merece uma revisão à parte.



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