terça-feira, 12 de outubro de 2021

Sonhos de Damasco | CRÍTICA (10º Olhar de Cinema)


Ao longo da projeção de Sonhos de Damasco, vemos a diretora Émilie Serri se nortear, entre crianças a idosos, de uma questão central entre os refugiados no Canadá: as memórias que cada um ainda tem de quando viviam na Síria. Seu propósito é nobre, uma vez que teme um iminente desaparecimento do país em decorrência dos impactos da guerra, mas também por sua vontade de se repatriar a partir dessas lembranças coletivas, das próprias (uma vez que a cineasta viajara com a família em algumas ocasiões ao longo dos anos) e daquelas fornecidas pelo seu próprio pai. O que se vê, então, é uma imersiva e criativa experiência e talvez um dos melhores filmes já exibidos na Mostra Competitiva da história do festival Olhar de Cinema.


Narrando com um misto de sobriedade e ternura que nos remetem ao estilo da saudosa Agnès Varda em seus documentários, Serri faz de Damascus Dreams uma jornada cinematográfica completa que vai desde esse prenunciado retrato sobre emigrantes sírios, passando por um road movie ao lado de seu pai sob uma luz natural crepuscular e até sequências oníricas envolvendo uma garota chamada Abana. Os velhos são enfáticos, fazem questão de olvidar as lembranças que tem da terra natal, enquanto adultos e crianças ainda possuem vislumbres de seu passado recente, mas o trauma estremece. Os depoimentos se dão breves e bem dinamizados pela montagem e pelo acerto da diretora em situar em pares de locações, sem contar o perspicaz design de som que reforça o sentimento expresso ao longo do filme (a cadência retumbante das batidas em um pilão, por exemplo) e as inventivas transições de falas que vem a ser ficar em off no mesmo plano.


Parentes da cineasta eram proprietários de uma das primeiras salas de cinema de Damasco.
Damascus Dreams/IFFR/Reprodução)


Na completude de sua experiência de repatriamento, Émilie Serri se debruça sobre fotos e vídeos de seu acervo familiar. Descobrimos que sua ligação com o cinema vem de longa data e seu pai, além de co-protagonista do filme, é um cinéfilo de mão cheia. Nas reflexões, conversam sobre a sequência do túnel congestionado de 8 e 1/2 e de Underground, uma narrativa sobre a desolação iugoslava. A cineasta também acerta em fugir da obviedade narrativa. Quando apresenta imagens feitas em sua última viagem para Damasco, a reflexão dada pelas imagens demonstrando a onipresença da imagem de Bashar Al-Assad até mesmo em canecas é, em seu levantamento histórico, dada com um discurso de mau agouro. Como um homem com um sorriso no rosto poderia ser um dos responsáveis por tanta tristeza?

Abana seria uma espécie de alter-ego de Émilie vagando numa locação labiríntica na busca de se encontrar. (© Damascus Dreams/IFFR/Reprodução)


Contendo belas tomadas em 16mm e apostando em mais performances no terço final do filme, Sonhos de Damasco é de um esforço artístico ímpar no intuito de preservar a cultura do povo da cineasta – e como a música e dança são radiantes! De sua representação dos refugiados aguardando um embarque em navio sob a neve, o que pode ser uma metáfora ao apagamento das memórias a partir do branqueamento que se vê na tela, entre outros momentos exímios, esse é um filme que espero muito avistar nas melhores premiações.



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