domingo, 17 de outubro de 2021

Apenas o Sol | CRÍTICA (10º Olhar de Cinema)


O que garante a sobrevivência da cultura de um povo? Acossados pelo baixo assistencialismo das políticas paraguaias e da constante evangelização forçada (como se aquelas dadas desde 1500 não fossem suficientes), os nativos dos Ayoreo tentam viver como podem – e, na maioria das vezes, com pouco. Na intenção de preservar as memórias de sua gente, um homem não se cansa de carregar um aparelho de som já antiquado para gravar as conversas com suas amizades no Chaco paraguaio. 


É tudo gravado em fita cassete. Sobode Chiqueño (chamado de "Mateo" para fins "sociais") nos conduz por uma região árida e pobre do Paraguai muito distinta daquele conhecido tumulto consumista de Cidade do Leste. A sombra neopentecostal parece ser maléfica para a região e a diretora Arami Ullón não nos poupa detalhes da seca que abate o Chaco. Animais pereceram, tal como boa parte da vegetação, mas os cultos são incessantes e chegam a ser incrédulas as falas de camaradas de Sobode que se converteram ao cristianismo e, hoje, praticamente demonizam suas origens.

Ullón também nos reserva momentos especiais dos costumes dos Ayoreo. A princípio, cantos de rituais soam estranhos aos nossos ouvidos pela língua desconhecida e o excesso de tremulações, mas não deixa de ser um ato belo, tal como o fato de cultuarem a maior estrela do sistema – daí o título do filme, Apenas o Sol (Apenas El Sol, no original). Porém, fica a ressalva de que o documentário parece se estender por mais tempo além dos seus breves 74 minutos; uma sensação de loop considerando uma certa redundância entre o bate-papo de Chiqueño e seu chegados. Ainda assim, um bom registro que reforça a intenção de seu protagonista e é compreensível a sua Menção Honrosa no 10º Olhar de Cinema na mostra Outros Olhares.

 


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