quarta-feira, 3 de novembro de 2021

ETERNOS – uma bem-vinda interferência de criatividade | CRÍTICA



Há pouco mais de dois anos, o anúncio do Marvel Studios em levar os Eternos aos cinemas parecia uma aposta ousada, estranha aos ouvidos do público acostumado com heróis tão populares. Talvez uma das criações mais eruditas e menos conhecidas de Jack Kirby na editora, a trama cósmica, pelo menos, já havia assegurado o interesse a partir do momento em que estrelas como Angelina JolieSalma Hayek foram reveladas no elenco ao passo em que o nome de sua diretora, até então, uma egressa das temáticas mundanas de baixo orçamento, passava batido. Com suas devidas e merecidas láureas por Nomadland adquiridas ao longo da temporada de premiações até alcançar a estatueta máxima no Oscar, porém, é perceptível como a diretora e roteirista Chloé Zhao não se cansa de nos surpreender com sua sensibilidade ímpar tendo um épico na palma de suas mãos que se prova distinto o suficiente de praticamente tudo o que foi visto no MCU até o momento. 


A considerar a imortalidade dos protagonistas, a intensidade de seus poderes e a sua origem dada pelos colossais Celestiais, Eternos poderia ser apenas um embate de titãs repleto de efeitos visuais e sonoros constantes seguindo os preceitos da fórmula do estúdio para o agrado imediato do fã. 

Felizmente, ao pegar o argumento escrito pela dupla Kaz Firpo e Ryan Firpo, Zhao encontrou um brilho a mais nessa história que percorre milênios permeados pelas tragédias da humanidade e, entre tratamentos do seu roteiro, a cineasta entrega um longo conto sobre o tempo e o que ele incide, principalmente, sobre as várias formas de amor. Até onde é possível ter compaixão? Como é amar outra pessoa ciente de que a imortalidade não é compartilhada? A empatia deve ficar abaixo dos princípios em que foram destinados a cumprir?

(© Marvel/Reprodução)


É fascinante como Zhao pondera e responde tais (e outras) questões neste que é um dos mais extensos títulos do Marvel Studios, mas tal maestria é igualmente compartilhada por seu time de atrizes e atores cuja escalação miscigenada é, de fato, um dos pontos altos. Feliz foi Kevin Feige de resgatar Gemma Chan após a esquecível vilã Minn-Erva, de Capitã Marvel, e concedê-la o papel de Sersi, num acerto perfeito. 

Por melhor acompanhada que esteja com Ajak (Hayek) e Thena (Angelina Jolie), sem se esquecer das sublimes Makkari (Lauren Ridloff) e Duende/Sprite (Lia McHugh), a Sersi de Chan é radiante não só por sua beleza, mas por ser a alma dessa história ao sintetizar tudo aquilo que a cineasta pretende nos dizer nas entrelinhas. É Sersi que se permite amar, dar amparo a quem precisa e a tomar decisões cruciais no ato de salvar a Terra, apesar das divergências encontradas na longeva equipe.  


É válido notar como Madden se movimenta sempre colocando Ikaris a frente dos demais companheiros.
(© Marvel/Reprodução)


Daí o seu contraste com Ikaris, num galante retorno de Richard Madden (Game Of Thrones) a uma grande franquia e com uma presença tão carismática quanto intimidadora. Com um poderio equiparado a ninguém menos que Superman (sim, a comparação existe em tela!), o personagem anseia em ser uma figura de liderança entre os seus iguais – mas a que ponto? É também impressionante a maturidade presente em Druig (Barry Kheogan), Gilgamesh (Don Lee) e Phastos (Bryan Tyree Henry) em suas respectivas convicções e ações, sem se esquecer do abalo emocional sofrido por Thena, minando toda a sua destreza com suas armas. Parece até que Angelina dividiu com sua heroína um pouco de seus tormentos pessoais dos últimos anos a julgar por seu semblante carregado de memórias.

(© Marvel/Reprodução)


Acertando em montar a trama de Eternos de forma não-linear no intuito de intensificar e conectar incidentes vividos entre dias atuais e eras do passado, Zhao também aproveita para a explorar a metalinguagem cinematográfica, ainda que diferente do que fora visto nos episódios de WandaVision. Da projeção de uma história narrada por Sprite ao povo da Babilônia quase como uma precursora do Mito da Caverna de Platão e do teatro de sombras, a ode ao cinema fica a cargo de Kingo – e como a diretora aproveita bem as comicidade de Kumail Nanjiani! Falar mais do que isso é comprometer o divertimento das cenas em questão, ainda que não faltem outras passagens tão engraçadas quanto.


O interior da Domo merece toda a atenção possível mediante os detalhes minuciosos arranjados pelo time de cenografistas. (© Marvel/Reprodução)


Demonstrando um zelo admirável no design de produção de Eve Stewart (Os Miseráveis) na replicação das formas de geometrias variadas desenhadas por Jack Kirby, ainda assim, Chloé Zhao encontra espaço para cravar as suas já conhecidas marcas de direção. A predileção em filmar com luz natural rende um espetáculo fotográfico como muito pouco se viu em tantos filmes do estúdio, com a diretora apostando em enquadramentos contemplativos e até mesmo em esquemas de iluminação audaciosos acompanhada do diretor de fotografia Ben Davis (Guardiões da Galáxia Vol. 2), onde até uma sequência de luta contra Deviantes focando os personagens tão subexpostos chega a ser uma surpresa – e das boas. Zhao também não se intimida diante de cenas com efeitos visuais e é certeira em seu senso de escala, vide o escopo que a tela assume (daí ver preferencialmente em IMAX) toda a vez em que o Celestial Arishem surge com toda a sua imponência.


A jornada de Dane Whitman (Kit Harington) está apenas começando. (© Marvel/Reprodução)

Eternals (no original) é um ótimo filme que estende a reflexão sobre valorizar o tempo e tudo o mais que nos é concedido e viemos a compartilhar. Ainda que amplifique o seu maior conflito além do limite, é admirável como o longa se faz autossuficiente em seu arco narrativo (o que é uma disparidade em praticamente tudo vindo do MCU), mesmo que não se contenha em pavimentar a jornada de Dane Whitman (Kit Harington, também de Game Of Thrones) para o futuro da Fase 4, mas até essa introdução não é gratuita aqui.

Da plausível aposta na inclusão além da linguagem de sinais e de se dispor (tardiamente) de comedimentos visuais, é notável como o fatalismo e o senso de empatia enfatizados pela cineasta elevam Eternos a ser uma das melhores produções do estúdio logo quando isso costuma ser medido por sequências de ação e piadas. Há quem diga que falta desenvolvimento para os dez personagens, mas são em seus gestos que enxergamos as suas características primordiais graças a sagacidade da diretora em pontuar que o altruísmo começa também por meras introspecções mundanas. 




P.S.: As duas cenas pós-créditos são bem importantes e empolgam para os próximos capítulos.

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