quarta-feira, 5 de junho de 2019

X-Men: Fênix Negra | CRÍTICA


Não seria mera coincidência que a trama de X-Men: Fênix Negra aconteça em um cenário muito mais receptivo a "super-heróis" do que costumava ser contado lá nos primórdios da franquia, há quase duas décadas. Integrante resiliente de um fenômeno que ajudou a construir nesse ínterim, o que um dia foi influenciador precisou se reinventar (e até se colorir) um pouco mais para ficar na cola de um bilionário e extrovertido universo cinematográfico, não demorando muito para ser ofuscado pelo lucrativo Deadpool e pela catedrática despedida de Hugh Jackman e Patrick Stewart de seus icônicos papéis em Logan. Mesmo assim, se uma parcela do público clamava pelo retorno dos Filhos do Átomo para as mãos confortáveis da Marvel Studios, os X-Men nos cinemas mutavam para desdobramentos interessantes (e até na televisão, com as séries Legion e The Gifted) ao passo em que sua franquia principal demonstrava um desgaste em virtude de suas constantes ligações com o passado.

De certa forma, é possível afirmar que este X-Men: Fênix Negra é o que menos se faz refém da nostalgia dos dois primeiros filmes dirigidos por Bryan Singer, incumbindo-se aí da tarefa de reparar algumas personagens descaracterizadas em Confronto Final, talvez um dos longas menos estimados pelos fãs (embora eu sempre tenha me divertido com ressalvas a parte). No entanto, talvez prejudicado pelo andamento da compra da Fox pela The Walt Disney Company durante a produção do filme, o roteiro do agora diretor Simon Kinberg acaba sempre em um beco sem saída mesmo que envolto de bons momentos.

(© 20th Century Fox/Divulgação)

Meio que impossibilitado de explorar outros vilões e arcos de seu cânone em virtude de um iminente reboot para situar os Filhos do Átomo em meio aos Vingadores, a trama de Fênix Negra fecha-se para si tal como a Jean Grey interpretada com afinco por Sophie Turner (Game Of Thrones) trata de fazer durante quase toda a narrativa. Ao contrário de todos os filmes anteriores, são poucas as novidades que permeiam o roteiro; impera-se aqui, além de um momentâneo empoderamento feminino para Raven/Mística (Jennifer Lawrence, cansada) e Tempestade (Alexandra Shipp), uma atmosfera introspectiva que torna boa parte da projeção em telepáticas sessões de terapia, abrindo e tão logo encerrando uma revisão de fatos sobre os limites do protecionismo mental do Xavier (James McAvoy) acerca de sua dita família.

(© 20th Century Fox/Divulgação)

De sequências marcantes, a missão espacial agrada pela dinâmica bem arranjada da equipe, com um Cíclope (Tye Sheridan) no ponto de ser um líder e Mercúrio (Evan Peters) dispensando músicas da época em seus resgates; há um acréscimo de violência também em outros três confrontos, sendo o primeiro destes dedicado a quase reprisar a sequência do ataque na casa de Jean Grey como visto no filme de 2006. Enquanto Hank McCoy (Nicholas Hoult) e Magneto (Michael Fassbender) flertam com um lado mais raivoso, existe a impressão de que Kinberg ainda não seja exatamente um diretor de ação como a franquia demandava a fim de um desfecho digno. Sobram diálogos reflexivos entre troca de closes e uma Jessica Chastain que não sabe ao certo como conduzir a sua vilã senão com voz serena e de passo cauteloso.

(© 20th Century Fox/Divulgação)

Em meio aos visíveis impasses, os esforços em promover mudanças positivas também são sentidos em Fênix Negra. Apesar de dispensar o tema característico composto por John Ottman, Hans Zimmer fica encarregado de tornar épica a experiência com suas modulações orquestrais constantes e, somado à montagem de Lee Smith (oscarizado por Dunkirk), é como se de fato estivéssemos um tipo de Christopher Nolan dirigindo X-Men com músicas que remetem aos últimos trabalhos do compositor com o cineasta por trás de Interestelar. Só é uma pena que a projeção em 3D, após suas boas aplicações em Dias de Um Futuro Esquecido e Apocalipse, nada acresça à fotografia de Mauro Fiore que, por sinal, ganhou Oscar na categoria por Avatar.

(© 20th Century Fox/Divulgação)

Se o longa tinha tudo para entregar um encerramento merecidamente apoteótico como o contexto permite, acaba que seu realizador opta por um desfecho mais sombrio e menos impactante do que o esperado. Ainda que o elenco jovem demonstre carisma e fôlego para isso, e que a dupla McAvoy/Fassbender faça o possível para dar um pouco mais de credibilidade ao drama encenado e ao entretenimento que já não é mais irreverente como no ótimo Primeira ClasseX-Men: Fênix Negra (X-Men: Dark Phoenix, no original) prova porque ainda vale acompanhar estas aventuras dos mutantes. No fim das contas, porém, não deixa de ser apenas um rascunho agridoce do quão épico seria com mãos mais experientes no comando, entregando aí um tratamento realmente digno para sua personagem-título e, com isso, só nos resta aguardar por seu ressurgimento futuro.  



P.S.: não há cenas pós-créditos.

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