sábado, 8 de junho de 2019

Etangs Noirs | CRÍTICA (8º Olhar de Cinema)


Em um festival que há tempos projeta diferentes perspectivas de cinema que fogem de seu convencional, foi uma interessante surpresa ver o que se desenrola no belga Etangs Noirs. Evocando o suspense clássico como bússola para a sua narrativa, os diretores Pieter Dumoulin e Timeau De Keyser entregam um filme que, além de acertarem em seu exercício de gênero, fazem um bom retrato da pluralidade de seu país.

Na trama, roteirizada pela dupla de diretores, Jimi (Cédric Luvuezo) recebe uma encomenda destinada ao seu apartamento, embora o nome do destinatário seja "Sayenna". Morador de um conjunto habitacional em Bruxelas onde é conhecido pela garotada, o rapaz tenta entrar em contato com a vizinha do outro bloco para prestar a gentileza de entregar o pacote, mas são várias as tentativas frustradas. Os vizinhos, pouco solícitos, não ajudam muito: não querem papo, falam por trás da porta ou se interessam em ficar com o pacote "para entregar depois". Honesto, Jimi quer entregar pessoalmente e, a cada pequena pista que lhe é dada, cresce uma certa obsessão no rapaz em querer descobrir quem é esta mulher tão ausente.

Tamanho MacGuffin instigante ao concentrar a atenção do público na caixa e na identidade da mulher, Etangs Noirs bebe muito da fonte de Alfred Hitchcock (não por menos, Dumoulin revelou no debate seguido da sessão) e, a partir de suas sequências de sonhos, diria até que há muito da estranheza característica de David Lynch. Há o aspecto do voyeur, indelével de Janela Indiscreta, o mistério insurgente de Cidade dos Sonhos, existindo também um certo diálogo com o ainda recente O Passageiro, de Jaume Collet-Serra, embora este prefira as vias do espetáculo ao invés da introspecção sentida aqui.

Todavia o protagonista careça de uma personalidade que revele um pouco mais de si além de sua solidão (algo que, sem dúvidas, nos faria gerar mais empatia por ele), o filme é aquele tipo de narrativa que mexe com o espectador que sempre vai enxergar uma solução mais fácil para aquele conflito central; em cinema, porém, sabemos que não é exatamente assim em sua sede por incidentes. De seu uso mínimo de diálogos, das faces de etnias e idades mistas, do desenho de som lúcido que dispensa uma trilha sonora fora de sua diegese, é provável que Etangs Noirs seja um forte candidato na Competitiva do 8º Olhar de Cinema.




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