segunda-feira, 17 de junho de 2019

Chão | CRÍTICA (8º Olhar de Cinema)


Comumente demonizados pela elite do atraso e por uma classe média delirante que se utiliza de dados jornalísticos pouco imparciais para justificar seu preconceito, os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra vem, há quase quarenta anos, reivindicando a Reforma Agrária no território brasileiro, ainda que, por vezes, tenham que agir por vias mais radicais do que ao polido costume social. Bloqueiam rodovias, ocupam os tantos hectares de fazendas de magnatas ligados a grandes corporações e/ou inseridos na política, mas também estimulam a alfabetização e a produção de alimentos orgânicos logo quando aqueles que chegam às mesas da maioria da população tendem a ser cada vez mais agrointoxicados.

No meio dessa luta, porém, ainda perduram os sonhos de ter um cantinho de terra para viver, plantar e criar e não seria coincidência que Chão, filme dirigido por Camila Freitas e ganhador do Prêmio Especial do Júri no 8º Olhar de Cinema, tenha como prólogo um papo entusiasmado entre uma senhora que atende por "Vó" e um companheiro chamado "P.C." em suas confabulações estruturadas procedidas de uma extensa jornada com muitos rostos de semblantes mistos e de propósitos tanto ideológicos como humanos.


Sem necessariamente levantar favoritismos partidários enquanto posiciona a base do governo Temer como antagonista – em específico, quando as terras de Blairo Maggi, então Ministro da Agricultura, são ocupadas –, o intuito de Camila Freitas é focar nas histórias que a gente do assentamento Leonir Orback, nas imediações de Anápolis, tem a contar enquanto cada etapa da invasão aos terrenos da Usina Santa Helena é minuciosamente detalhada pela câmera. Aliás, a equipe de diretores de fotografia da realizadora faz um trabalho que beira ao épico ao captar imagens que aproveitam o belo relevo da região e todo o fluxo de poeira da estrada e gente com planos gerais ocasionalmente fixos que não desperdiçam a profundidade de campo e, em outros casos, registram closes que tornam a experiência em algo mais tátil.

Com algumas inesperadas passagens de humor involuntário (a propaganda pró-agronegócio com Giovanna Antonelli e os resultados da burocracia no tribunal são risíveis considerando seus absurdos), a abordagem "macro" pode até causar uma leve dispersão mediante tamanha compilação de acontecimentos que nem sempre seguem o didatismo observativo que marca boa parte do filme. 

Documentário de pertinentes informações que afugentam as depreciações acerca do MST, mesmo com o seu final aberto e de cartelas finais quanto ao mau agouro que permeia o cenário político brasileiro, Chão se torna uma obra à disposição daqueles dispostos a uma embasada revisão de fatos.



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