quarta-feira, 19 de junho de 2019

Deslembro | CRÍTICA


É intragável o discurso de que os tempos da Ditadura Militar foram bons para os brasileiros quando não faltam evidências de que foi um governo tirano que sequestrou, torturou e assassinou tanta gente em sua paranóia de combater subversivos e supostos "comunas". O que tantos documentários já deram a prova cabal de tantos malefícios – incluindo aí o contundente Não é Hora de Chorar (exibido recentemente na 8ª edição do festival Olhar de Cinema) –, há de se levar em conta toda uma geração que cresceu desprovida da presença dos pais e/ou parentes e, com isso, perderam muito da instrução e até memórias que bem formariam sua identidade. 

Deslembro, filme dirigido por Flavia Castro com ternura e apreço aos detalhes, dá até a entender que se passa nos dias atuais a julgar pela família bastante inconvencional. Porém, a narrativa se passa em 1979 – ano da Anistia Política, época em que muitos brasileiros, mesmo exilados em países de dito "primeiro mundo", mal esperavam para regressar a sua verdadeira casa. Vivendo com a mãe, o padrasto e os "meio-irmãos" na França, a adolescente Julia (Jeanne Boudier) detesta a ideia de ir/voltar para um país onde se tortura ou, mais precisamente, de abandonar suas amizades ali para ter uma nova vivência do outro lado do Atlântico.


(© Imovision/Divulgação)

Da hesitação, Julia começa a apreciar os detalhes que a vida no acalorado Rio de Janeiro lhe provém. Com isso, a produção de Deslembro é exímia na réplica dos costumes de quarenta anos passados, seja pelos adereços, vestimentas, cenários até mesmo o que passava na TV, como uma novela estrelando Lucélia Santos e Fábio Jr. ou até mesmo um episódio do programa Silvio Santos. Tendo nomes de peso na produção, como Walter Salles e José Alvarenga Jr., o filme detém uma narrativa envolvente que não se torna dispersiva, ainda mais com a fotografia de Heloisa Passos tratando de fazer um registro tátil em ambientes internos e contemplativo nos arredores do Rio, vertendo-se para um lado mais poético quando a garota relembra do passado quase esquecido com o pai (Jesuíta Barbosa).

Da mistura do rock com bossa nova, das festas de aniversário simples e deliciosas, de atestar a figura materna vestindo trajes mais sociais para ir ao trabalho, além da participação encantadora de Eliane Giardini, Deslembro é um filme que, certamente, provoca experiências particulares para cada espectador, senão um adendo de como se fazia para se conformar com a pretérita dor. 



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