quarta-feira, 12 de junho de 2019

Indianara | CRÍTICA (8º Olhar de Cinema)


Engana-se quem pensa que política se faz de dois em dois anos – qualquer ato em si já se faz um gesto político quando é preciso defender e, muitas vezes, gritar por uma causa. Mulher trans com passado na prostituição nas ruas, Indianara hoje é reconhecida por ser uma forte ativista no Rio de Janeiro pela causa LGBT e por se tornar uma madrinha para muitas e muitos abrigados na chamada Casa Nem. 

Em um retrato meticuloso e intimista montado a partir do acompanhamento da personagem-título nos três últimos anos, a dupla de diretores Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa procura entender a resiliência e magnetismo de Indianara Siqueira. A resposta, por sua vez, vem logo de cara: um caixão com mais uma vítima da homofobia é enterrado em vala simples, o que faz a ativista deixar no ar a pergunta sobre por que tanta implicância e discriminação com a diversidade e miscigenação logo quando todos encontrarão o mesmo fim. Indianara, porém, tem seus momentos de felicidade: é casada com um homem divertido, gosta de uma cervejinha, piscina, festas e (como não poderia faltar…) gritar "Fora, Temer!" em várias manifestações onde reclama pela falta de voz de sua gente.

Indianara canta e brada nas manifestações. (AdoroCinema/Reprodução)

Com uma boa montagem que intercala todos esses momentos com enquadramentos variados, músicas e efeitos sonoros que deixam a experiência, de fato, mais atrativa, Indianara também é um registro paralelo da decadência política carioca e daí brasileira. O dito golpe do PSOL contra sua possível candidatura à deputada federal revela, senão, um lado oportunista da esquerda brasileira que diz abraçar as minorias quando mais quer aumentar seu minguado eleitorado – gerando toda a polêmica do desalojamento da Casa Nem. Ainda assim, torna-se impossível não ceder espaço de tela quando há imagens da vereadora Marielle Franco ainda viva, sempre presente e dona de uma força íntegra cuja chama não deve se apagar tão cedo.

Daí uma mudança no tom principalmente em seu terço final. Afora um momento particular de alegria para Indianara, os gritos nas ruas clamam pela vereadora e seu motorista assassinados (o plano dos caixões é de um impacto tremendo), os resultados das eleições presidenciais assolam a comunidade diante de uma gestão que agora se revela ineficiente para com seu povo a não ser para causa própria. Indianara, sem embargo, é radical, mas de uma grandeza humana que está em falta por aí nas lutas sociais. 


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