quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

História de um Casamento | CRÍTICA


Parece um eufemismo ou até mesmo irreal que a expressão "separação amigável" tenha aparecido de uns tempos pra cá para resumir aqueles relacionamentos que, desgaste emocional a parte, acabaram entrando num acordo positivo para o bem de todos os envolvidos na questão, ainda mais quando há filhos inclusos nessa divisão, existindo até uma possibilidade de contato (distante) entre os então cônjuges. Todavia, em terra onde acordos verbais são deixados de lado a cada revisão de fatos e ludibriados por gananciosas manobras de advogados, até mesmo os resquícios de uma amizade podem ruir em prol do egoísmo, algo que o cineasta Noah Baumbach e seu elenco demonstram com sensibilidade ímpar em História de um Casamento.

Nicole (Scarlett Johansson) e Charlie (Adam Driver) são um casal do meio artístico de Nova York que estão prestes a migrar com sua aclamada peça para a Broadway enquanto se revezam nas atividades domésticas e na educação do único filho, Henry (Azhy Robertson). Entre as admirações mútuas e os defeitos que se deixam passar, o casal se vê diante da terapia e disposto a encerrar a relação de quase uma década que, apesar de contribuir para o sucesso de Charlie, acabou ofuscando várias oportunidades para Nicole, estigmatizada por uma icônica participação num teen movie e que agora se vê tentada a voltar para Los Angeles a fim de protagonizar um piloto de série mesmo cujo roteiro seja de qualidade duvidosa. Nos custosos traslados entre costas americanas, aumentam as questões sobre a guarda do filho e outras novas vivências que só tendem a ruir o que aqueles dois sentiam um pelo outro até se tornar um verdadeiro jogo sujo no tribunal.

(© Netflix/Divulgação)

Ecoando a situação caótica vivida pelos personagens de Dustin Hoffman e Meryl Streep há exatos 40 anos em Kramer vs Kramer enquanto a maior parte das ações acontecem em Los Angeles e que não se faz o mesmo alarde em ver uma mulher tomar partido e "abandonar" seu lar a favor de sua liberdade, é fascinante como Baumbach extrai de seu elenco esse retrato tão mundano que, todavia pareça simples de ser representado mediante sua atualidade, é o que parece mais exigir nas performances. Para isso, é interessante notar como o diretor roteiriza discursos extensos e retém a duração dos planos sem nem ao menos movimentar a câmera nos ambientes e, disso, Adam Driver e Scarlett Johansson crescem intensamente ainda mais quando o público pode enxergá-los como seus pares, distantes da suspensão da descrença de serem vistos com trajes e falas fantasiosas das recentes franquias pelas quais passaram. Exibindo com firmeza as nuances decadentes de um rompimento irreversível, a dupla reitera seu talento que só não vê quem não quer.

(© Netflix/Divulgação)

Esporadicamente extenso em um ou outro incidente narrativo, História de um Casamento (Marriage Story, no original) é radiante em seu texto justamente porque acerta ao se esquivar de um maniqueísmo barato ávido em delimitar vilões para um posicionamento imediato do espectador, ainda que a trilha sonora de Randy Newman evoque apertos no coração ao breve soar de notas similares que nos fizeram ir às lágrimas nos filmes Toy Story. O humor tem seus momentos sutis a passagens mais escrachadas entre o peso dramático que visa a ser uma constante no divórcio litigioso e é impactante como o monólogo da advogada vivida com glamour por Laura Dern (ótima também!) atenta para a omitida aura da figura materna na cultura ocidental.

Mais do que uma longa dramatização de briga de casal, da denúncia aos entraves burocráticos do Direito Familiar entre estados, seria o filme uma lembrança do quanto se pode crescer juntos por mais que a paixão tenha se dissolvido, mas a favor dos simples gestos de afeto e da gratidão pelos mesmos.



Nenhum comentário:

Postar um comentário