quinta-feira, 5 de março de 2026

A NOIVA! – uma nova definição de vanguarda de filmes de monstro | CRÍTICA

 

É tudo uma questão de perspectiva …e de querer propor inovações coesas e relevantes. Entre remakes supérfluos ou de puro mal gosto, os clássicos monstros do cinema ganharam tantas releituras ao longo das décadas que, no fim das contas, foram diminuindo sua imponência no terror tamanho desgaste de imagem pela repetição pouco aprazível. Desvencilhando das velhas mesmices, A Noiva! é surpreendentemente um monstro cinematográfico no melhor sentido possível.


Dirigido e escrito por Maggie Gyllenhaal (em sua segunda empreitada em longa-metragem após A Filha Perdida), o filme é uma versão totalmente anárquica, neogótica, noir e até metalinguística para A Noiva de Frankenstein, mas também uma lição para tudo o que Coringa: Delírio a Dois tanto se vendeu, mas nunca foi. Dizer também que a trama, situada nos Estados Unidos da década de 1930, se concentra na busca de "Frank" (Christian Bale, o ator certo pro papel) em busca de um relacionamento seria minimizar todo o contexto que Gyllenhaal empreende com afinco. Capitaneada por uma enérgica Jessie Buckley, fazendo de sua premiada performance em Hamnet ser quase nada perto do que contemplamos aqui, a narrativa dá voz e alma para a perspectiva feminina, o que compreende mais do que um conto de uma mulher reanimada tentando se adaptar a companhia de um monstro enquanto tenta resgatar vislumbres de seu passado e de outra visita romântica em sua mente.


Annette Benning, Christian Bale e Jessie Buckley em A NOIVA!
(© Warner Bros. Pictures/Divulgação)


Desde a extravagância absurda das caracterizações, figurinos e cenários à fotografia emblemática de Lawrence Sher e a trilha de Hildur Guðnadóttir (ambos de Coringa) evocando um punk sinfônico, A Noiva! é uma aula de Cinema que há tempos desejávamos e não é só por sua cinefilia que elegia os clássicos filmes de monstro, mas em sua verve de filme de gângster e detetive de morais dúbias, bem como um forte referencial a Bonnie e Clyde. A cumplicidade de Buckley e Bale é tão fascinante e, ao mesmo tempo, tão perigosa de assistir porque nos tornamos cúmplices desta dupla e passamos a recear pelo desfecho que, como fadado aos monstros, pode não ser lá feliz. Vale a nota também para o bom uso de planos nos diagonais ângulos holandeses ressaltando toda a psique conturbada da protagonista.

Peter Sarsgaard e Penélope Cruz em A NOIVA!
(© Warner Bros. Pictures/Divulgação)


Frenético e autêntico em repaginar Frankenstein diferente das roupagens piegas em que foi submetido enquanto celebra o intelecto feminino (como se não bastasse a explosão que é Jessie Buckley, temos as ótimas performances de Annette Benning e Penélope Cruz), no fim das contas, o filme é ainda uma obra sobre Mary Shelley que, em um desafio quanto as suas capacidades, alcançou a eternidade.


Assista ao trailer:

   



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