segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Até O Último Homem | CRÍTICA


Mel Gibson é um daqueles astros de Hollywood que todo mundo costumava ter na ponta da língua um elogio pra lá de positivo no que se refere aos filmes que atuou e, posteriormente, dirigiu com uma qualidade exímia. Afastado dos holofotes por polêmicas, há quem estivesse esperando por uma volta triunfal do ator/diretor e, para alguns, a hora chegou com o assistível Herança de Sangue, onde Gibson provou ser ainda um road warrior aos 60 anos, e agora com Até O Último Homem, seu retorno à direção se confirma um verdadeiro dilema entre a redenção e a ode à violência gráfica.

Com roteiro assinado por Robert Schenkkan (série The Pacific) e Andrew Knight (Promessas de Guerra), o filme conta a história de Desmond Doss, o médico de combate que salvou mais de setenta soldados no campo de guerra na Serra Hacksaw, Okinawa, em 1945. Doss, no entanto, salvara seus companheiros senão pelo seu esforço braçal, uma vez que jurou não pegar em armas de fogo considerando sua religião cristã adventista, mote que sustenta exaustivamente metade da narrativa.


No que se entende ser uma necessidade classicista de apresentar o herói da trama, somos apresentados ao Desmond Doss da infância e seu convívio complicado e violento em casa com o pai (vivido por Hugo Weaving) amargurado pelas sequelas da Primeira Guerra, passando pela juventude (já interpretado por um esforçado Andrew Garfield) e seus flertes com a enfermeira Dorothy (Teresa Palmer), seu desejo de casar com a moça e seu ímpeto em se voluntariar para as forças armadas mesmo alegando ser pacifista. Com retratos ensolarados a partir da fotografia de Simon Duggan (O Grande Gatsby, Warcraft), tudo nessa parte é contado com uma certa ingenuidade marcada pela pieguice de alguns diálogos e também situações que já estão mais do que batidas nesse tipo de filme.

De fato, é quando a Guerra de Okinawa entra em cena que, finalmente, vemos a tradicional assinatura de Gibson no projeto, ou seja, violência e corpos mutilados de sobra em meio a um cenário que já se encontrava lúgubre. Surpreendendo por situar o combate sem cerimônias e, que em poucos segundos, já traz baixas ao pelotão americano, é como se o despreparo de Doss perante as armas também nos afetasse em meio ao conflito, que não deixa de ser interessante pelas estratégias visuais que o diretor emprega em sua mise-en-scène. Tudo o que acontece ali no cume da serra é tão rápido quanto o efeito brutal dos disparos das balas dos dois lados.


Projetando-se com maior estima do que deveria, Hacksaw Ridge (no título original) vinga e retoma o interesse mesmo no exato momento em que a vocação do personagem vem à tona logo quando tantas tomadas de tiro e sangue viraram pleonasmo, apresentando não só uma sequência que recobra os momentos angustiantes, como insere uma urgência que até então estava ausente ali em meio a correria executada por Garfield. No fundo, contudo, Até O Último Homem pouco acrescenta de inovador ao seu gênero, parecendo mais inclinado a agradar os saudosistas dos tempos de glórias (apesar das perdas alarmantes) e um crescente público religioso que, ao testemunhar em tela personagens contemporâneos que ainda põem em prática os mandamentos Dele, talvez encontrem algo positivo quando todo o cenário real parece estar perdido.



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