terça-feira, 31 de março de 2020

O Serviço de Entregas da Kiki | CRÍTICA


Com a recente inclusão de um ciclo de filmes do Studio Ghibli no catálogo da Netflix, O Serviço de Entregas da Kiki (Majo no Takkyūbin), lançado em 1989, é uma das animações do renomado estúdio que estão à disposição do público. Contando a trama de uma jovem bruxa de treze anos que sai de casa para praticar suas habilidades pelo período de um ano, Kiki (Minami Takayama), acompanhada de seu gato preto Jiji (Rei Sakuma), decide partir numa noite de lua cheia e céu limpo. Acompanhamos sua jornada em busca de uma cidade acolhedora, novos amigos e crescimento pessoal.

Kiki tem treze anos e é uma personagem doce e forte que passa por uma jornada de crescimento pessoal e espiritual. Ela precisa encontrar um lugar pra chamar de lar, construir relações com outras pessoas, ganhar e gastar sabiamente seu dinheiro. Para isso, Kiki escolhe uma cidade à beira-mar e conta com a sorte de encontrar boas pessoas em seu caminho. Ela conhece Osono (Keiko Toda), dona de uma padaria que está grávida e, por isso, precisa também de ajuda em seu negócio. Oferece um quarto para Kiki em troca de alguma ajuda na padaria e, paralelamente, a bruxinha monta um serviço de delivery, transportando coisas das mais diversas: presentes de tias para sobrinhos, tortas de avós para netas, caixas pesadas.

É em seu trabalho que Kiki vai cruzar o caminho de muitas pessoas, desde as mais velhas as mais novas, as mais bondosas e as mais arrogantes. Este é um clima que vai permear boa parte da obra: o de encontros com outras pessoas e a reação de Kiki diante destas situações. Este é um filme que versa sobre o crescer, criar senso de responsabilidade sobre o que é intrínseco e vital. Nem sempre é o trabalho, o sustento do corpo, mas como o espírito também pode adoecer quando nos esquecemos dele. Sem pulsão de vida, não há mais nada. E enquanto passa por isso, Kiki entende que o fardo que começou a carregar junto de sua primeira entrega jamais a deixará: "ainda me sinto triste às vezes, mas na maior parte do tempo, gosto daqui".



A visualidade da obra parece ter algo um pouco mais distante quando contraposto com outros filmes do estúdio, onde as situações mais sombrias, ainda que muito bem trabalhas em sua composição visual, também transmitem o desconforto ou o medo da personagem. Aqui, há uma sensação de paz e aconchego que parece ser constantemente transmitida ao espectador. Mesmo quando há momentos mais sombrios, como quando Kiki adoece ou tem dificuldades com seu poder, o cenário ainda é muito acolhedor. Os corvos podem até parecer assustadores em um primeiro momento, mas logo são colocados em posições amigáveis junto da mais nova amiga, Ursula (Minami Takayama). É Ursula que acolherá Kiki num momento difícil, e que lhe dará preciosos conselhos acerca da vida de quem trabalha e vive pela Arte, seja com os pincéis ou com a vassoura à mão.

Tombo (Kappei Yamaguchi) vai ser também uma personagem de lugar especial no filme. Formando um par de ar romântico, inocente e juvenil com Kiki, o menino espoleta e brincalhão fascina-se de imediato pela jovem bruxa e não sossega até conseguir realmente se aproximar e criar uma bela amizade com ela.

O Serviço de Entregas da Kiki é dirigido por Hayao Miyazaki e, apesar de ser apenas o quarto filme produzido pelo estúdio, já apresenta bases sólidas de um estilo marcante quanto à narrativa e visuais que vão compor seu nome. Kiki é, sem dúvida, uma personagem do Studio Ghibli, cujas características marcantes passam por uma personalidade adorável, mas também frágil, que precisa encarar o mundo para endurecer a casca sem perder o que há de mais belo dentro de si.



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