quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Aliados | CRÍTICA


Quando trata em fazer filmes com personagens envolventes, Robert Zemeckis é craque no assunto – isso se for considerar boa parte de sua filmografia repleta de histórias cativantes e humoradas, além do elenco que dificilmente compromete a narrativa. Com Aliados, o diretor embarca no que chama de thriller romântico situado em plena Segunda Guerra que, embora culmine de forma previsível, não deixa de confabular um panorama particular desse grande conflito mundial.


De nacionalidades diferentes, eles se desconheciam pessoalmente, mas lutam pela mesma causa e, para o êxito de sua nova missão, precisam se passar por um casal francês pra lá de apaixonado. A etiqueta dita o contrário disso, porém, é no absurdo calor marroquino de Casablanca que os agentes Max Vatan (Brad Pitt) e Marianne Beauséjour (Marion Cotillard) se encontram para eliminar alguns figurões nazistas ocupando o país, mas até lá, entre tantos alemães e demais simpatizantes do partido de Hitler na cidade, cabe aos dois acatar a rotina do matrimônio sem estragar o arriscado disfarce. A partir daí, entre diálogos e provocações libidinosas (mais por parte da francesa), explode uma paixão que só revigora a parceria na tarefa e que também lhes trará frutos a um custo, no entanto, que poderá ser caro demais nos anos seguintes.



Escrito por Steven Knight (Pegando Fogo) e longe de ser um remake de Casablanca, o roteiro de Aliados segue um itinerário incomum que vai de iniciais meias palavras sedutoras e bilíngues, descrevendo seus personagens de forma hesitante e assim segurando um mistério que será posto em cheque na segunda metade da narrativa, onde o amor é forçado a dar espaço para um crescente e soturno sentimento de desconfiança típico de um film noir. Todavia, a boa fotografia de Don Burgess (Invocação do Mal 2, Forrest Gump) faz com que a experiência seja bastante iluminada, tratando de louvar a arquitetura e a moda da época recriados aqui com elegância de sobra por Gary Freeman e a figurinista Joanna Johnston (O Agente da U.N.C.L.E.), indicada por justa causa no Oscar ao vestir a personagem de Cotillard ora com leveza ora sensualidade de sobra, logo quando o cinema da década retratada se mantinha receoso nesse quesito.

Apesar de seu antiquado tratamento freudiano envolvendo a jornada da co-protagonista, é curioso notar que o filme, ainda assim, possui preciosidades que a envolvente decupagem de Zemeckis não deixa passar com seus enquadramentos extravagantes (vide a sequência de abertura no deserto e a consecutiva valorização dos segundos planos nas cenas) ou enquanto revela coadjuvantes física e emocionalmente sequelados durante a investigação particular de Vatan. Imaginando aí um cotidiano menos trágico e inesperadamente liberal, paradoxalmente ao que vemos na maioria das produções com o tema, a narrativa insere momentos de vida para os personagens por mais que o final da guerra lhes pareça intangível, ainda que comemorem quando um caça nazista é abatido em pleno céu londrino, é uma surpresa vê-los fazendo festas caseiras carregadas de whiskey, cervejas e, quem diria, sexo e até drogas ilícitas. A espera pelo fim do mundo, portanto, não precisa ser levada de forma angustiante como o drama estigmatizou ao longo das décadas.



Com alguns exageros de sobra e uma clara inspiração em Bastardos Inglórios a julgar pelas cenas de ação (além de seus dois atores que já estavam no longa de Tarantino), Aliados (Allied) pode não ser uma das obras mais memoráveis de Robert Zemeckis, fato que pode ser atribuído a uma relativa recusa da velha crítica e cinefilia em tirar seus queridos Forrest Gump e De Volta Para o Futuro do topo, mas é no conjunto da obra que reside o destaque do diretor em sua revisão do tema. E quem melhor que Zemeckis em radicalizar as formalidades sem perder a pompa?




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