sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A Lei da Noite | CRÍTICA


Quase sem parar pra descanso nos últimos cinco anos, Ben Affleck viu sua carreira despontar desde que Argo foi eleito Melhor Filme nas premiações de 2013 e, mais ainda, a partir do momento em que foi escalado para dar vida ao novo Batman. De lá pra cá, estrelou alguns pares de filmes (sem contar aqueles do universo DC Comics) e produziu outros, adiou projetos de punho próprio até que, supostamente encontrando uma brecha para realizar algo para chamar de seu, o cineasta encontrou em A Lei da Noite um projeto audaz cujo enredo distinto poderia colocá-lo entre os grandes diretores de filmes de gangsters. Sua projeção, no entanto, revela uma obra hiperbólica que detém em mãos mais do que consegue contar.


Produzido, dirigido, roteirizado, protagonizado e até mesmo narrado pelo próprio Affleck, a narrativa adapta o livro homônimo assinado por Dennis Lehane contando a história de Joe Coughlin, um jovem veterano da Primeira Guerra Mundial que retorna a Boston como um fora-da-lei incomum: casual assaltante de bancos, Coughlin tenta não atirar para matar e recusa a se adaptar aos costumes das máfias italiana e irlandesa, tipicamente cheias de pós e contras em tempos de Lei Seca e a recessão econômica pela qual os EUA estavam passando no final da década de 1920. Colhendo apenas fracasso e uma decepção amorosa (a sensual informante Emma Gould, vivida por Sienna Miller) em sua cidade de origem, Coughlin parte para a Flórida visando monopolizar o mercado de rum e assim ter poderio suficiente para se vingar daqueles que o prejudicaram anos antes. Uma nova e lucrativa jornada que não só colocará a bela cubana Graciela Suarez (Zoe Saldana) em seu caminho, como diversos impasses sociais, econômicos e religiosos a serem resolvidos na região.



Entregando uma produção impecável, que conta também com a assinatura de Leonardo DiCaprio, A Lei da Noite não tem receios em esbanjar um figurino vistoso para homens e mulheres, além de uma invejável coleção de chapéus que Coughlin põe na cabeça praticamente a cada cena em que surge mais rico, o design de produção de Jess Gonchor (indicado ao Oscar por Ave, César!) parece se inspirar na paleta de cores das pinturas de Edward Hopper ao sublimar espaços externos e internos entre sombras e cores ocasionalmente vívidas, partindo da semi-palidez do céu do norte para um sul que, entre os tons tropicais, encontra a elegância do sépia. Tudo, obviamente, bem fotografado pelo experiente Robert Richardson (Os Oito Odiados), imprimindo em tela belos planos das locações pantanosas da Flórida além de estabelecer ocasionais quadros emblemáticos, tal como o carro da polícia em chamas em um lago.

Afora as qualidades técnicas e artísticas, sem contar o empenho de Affleck em criar boas sequências de ação tal como uma perseguição policial em alta velocidade e o aguardado acerto de contas numa mansão do velho Pescatore, é uma pena que A Lei da Noite seja inflado de subtramas que comprometem a atenção ao filme, apesar de suas relevantes e atuais críticas nas entrelinhas que apontam o louvável esforço produtivo das mãos de imigrantes enquanto instituições não poupam preconceitos. Dedicando um tempo considerável para cada segmento temático, Affleck se mostra crente no "bom mocismo" de seu personagem enquanto o dispõe lidando com chantagens a um delegado (Chris Cooper), o que leva a filha deste a se tornar uma cristã fervorosa que condena a bebedeira e a jogatina, logo quando Coughlin pretende erguer um cassino por ali. Até incidentes com a Ku Klux Klan são inseridos e tão logo resolvidos de forma um tanto quanto sisuda, logo quando um pouco de humor viria a calhar, tal como Tarantino debochou do grupo em Django Livre.



Trazendo ocasionais falas impactantes que resultam, por exemplo, em um admirável diálogo entre Coughlin e Loretta Figgis (Elle Fanning) sobre o paraíso e o inferno, é evidente que o texto original de A Lei da Noite (Live By Night) não poupa detalhes sobre uma época tão bem retratada no cinema e que traz uma revisão diferenciada para o dito gangsterismo. Das suas digressões que poderiam ser enxugadas em prol de uma narrativa mais concisa, fato que se torna alarmante na escolha definitiva de seu desfecho entre cenas expositivas. Também não espere ver Joe Coughlin abraçar as trevas tal como fizera Michael Corleone ou tomar atitudes maliciosamente insanas típicas dos personagens de Scorsese, aqui predomina a busca pela luz. Está longe de ser o filme definitivo de Affleck que, sem querer, impõe nas motivações do personagem a vontade de ter um merecido descanso.




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