domingo, 6 de maio de 2018

Vingadores: Guerra Infinita | CRÍTICA


Muito mais do que ter reunido um time de super-heróis em um só filme, Os Vingadores definiu por completo um padrão de cinema para o Marvel Studios. Aprendendo com os resultados das produções que levaram os heróis da editora para as telonas na década passada por outras produtoras, foi se aliando ao diretor e roteirista noveleiro Joss Whedon que o estúdio chefiado pelo produtor Kevin Feige alcançou a sua estética ideal para integrar mais heróis em cena com um estilo próprio e diferente do que fora feito até então, mas potencialmente cativante para as audiências.

Logo, acima da opção por uma paleta de cores vívidas refletidas em uniformes e nas cenas diurnas ensolaradas, combinado com seu roteiro transigente e repleto de um bom número de piadas (apesar de outras dispensáveis, convenhamos), entrava em cena o maior trunfo da produção: as divertidas interações dos heróis e suas combinações de poderes em um clímax vibrante que só mesmo um elenco carismático poderia entregar e que viria a se expandir nos empolgantes títulos seguintes.

Passados seis anos e uma dúzia de filmes depois, pode-se dizer que Vingadores: Guerra Infinita se projeta como a plenitude da Marvel no cinema, sendo incrível atestar o quão disposta surja para entregar a sua melhor obra em tempo de celebrar seus "primeiros dez anos" e a fim de reparar alguns deslizes que, querendo ou não, acarretaram em deméritos de sua tão falada fórmula. Uma vez que aspectos técnicos como a falta de uma trilha sonora icônica ou de um tratamento de cor mais criativo na fotografia eram pormenores diante da recorrência de vilões insípidos em boa parte dos longas anteriores, aqui, felizmente, essas ressalvas são corrigidas com eficiência, culminando em uma aventura cuja dinâmica raramente cansa o espectador. Pelo contrário, só tende a reafirmar o prazer deste em ter dedicado tanto tempo acompanhando esta infinita jornada que finalmente alcança um patamar épico.

Forjando o perfeito equilíbrio


Marvel / Divulgação)

Livres do embate de ter que desenvolver uma trama de cunho sociopolítico interrompida pela necessidade de colocar heróis batalhando entre si motivados por um melodrama que dificultava o posicionamento do público perante o personagem principal de Capitão América: Guerra Civil, é gratificante atestar como os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely fazem do texto de Guerra Infinita uma obra ágil, mas sem pressa de desenvolver seus arcos dramáticos com a fluidez e a empatia que cada núcleo de personagens requer ao seu devido tempo. Com sequências de ação a um bom ritmo progressivo justificado pela urgência das missões, a narrativa não peca em seu lado sombrio sabendo o ponto certo de proferir uma piada envolvendo cultura pop ou situar o impacto das decisões tomadas nas relações amorosas: aqui, sacrifícios se tornam uma prioridade, uma viagem sem volta. 

Com esse pretexto, a narrativa acerta ao optar na construção do arqui-inimigo da trama enquanto sua Ordem Negra tem introdução mais do que suficiente mediante suas ações, indumentárias e aparências sinistras, sendo o cruel telecinético Fauce de Ébano o mais interessante de todos – a vilã Próxima Meia-Noite (voz de Carrie Coon) dificilmente tem um close com mais de 5 segundos tamanho desleixo visual. Embora composto digitalmente a partir de movimentos e voz de Josh Brolin, Thanos é a ameaça plausível que faltava para este universo cinematográfico trazendo consigo uma motivação coerente logo quando tinha tudo para ser exaustivamente genérica a julgar pelo seu plano genocida em escala universal.

Tornando o Titã Louco estranhamente cativante (apesar de ser um adepto das controversas teorias malthusianas) e que impressiona muito mais do que por razões de sua caracterização caprichada nos mínimos detalhes, a narrativa se permite utilizar flashbacks e até passagens oníricas que se figuram inéditas para o padrão Marvel, fazendo de Thanos um sujeito que transparece sua dor emocional e que compreende a luta de seus adversários em prol da sobrevivência. Nessa soma de aspectos positivos, só é uma pena que o compositor Alan Silvestri não tenha criado um tema icônio para o antagonista que não utilizando um segmento de notas graves, sendo seu retorno à franquia num intuito de reger diversas variações ora heróicas ora sombrias de seu marcante tema para o filme de 2012.

Marvel / Divulgação)

Os diretores Anthony e Joe Russo também demonstram uma admirável evolução tanto no comando das ações quanto na direção de seu vasto elenco. Uma vez que a grandiosidade deste tipo de narrativa pode se tornar terrivelmente maçante em mãos desequilibradas, os irmãos cineastas não só extraem o que há de melhor no elenco como evitam qualquer evidência de deus ex machina e acertam na dinâmica de sua montagem com cortes inteligentes e interligando cada núcleo a partir de ideias expressas nas cenas, todavia também seja um mérito do roteiro.

O esmero também é notável no que tange à cinematografia de Guerra Infinita. Ao amenizarem os movimentos alucinantes e tremidos da câmera do diretor de fotografia Trent Opaloch, os diretores encontram espaços para investir em enquadramentos contemplativos (com a contribuição de alguns lençóis maranhenses, os planos da sequência no planeta Vormir são esplêndidos!) que finalmente recebem um color grading embora seja um filme muito mais sombrio do que de costume, a angulação da câmera em contra-plongée se faz importante para salientar a imponência de Thanos, sendo outro bom adendo na construção do personagem. Outra menção honrosa reside na exibição dos poderes dos heróis com a decupagem valorizando cada movimento impactante das lutas coreografadas do trio Capitão América (Chris Evans), Viúva Negra (Scarlett Johansson) e Falcão (Anthony Mackie), ainda que sejam ofuscados perante os momentos épicos do Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) e Thor (Chris Hemsworth) em composições cujos efeitos preenchem o quadro e brilham nos olhos atentos de quem assiste.

Marvel / Divulgação)

Tendo o estúdio encontrado finalmente a abordagem eficaz para o Deus do Trovão, vale notar o quão confiante e presente Hemsworth vem de Thor: Ragnarok e surge a cada cena com um carisma que funciona com todos aqueles com quem interage e, se a predileção ao deboche acabava perdendo o peso da mitologia no filme dirigido por Taika Waititi, aqui o humor sabe a hora certa de aparecer. Ademais, Robert Downey Jr. e Tom Holland continuam fazendo de Homem de Ferro e Homem-Aranha uma dupla infalível, somando às ironias cultas de Stephen Strange e a esportiva dos Guardiões da Galáxia – Chris Pratt, porém, é a forçado a entregar um Peter Quill próximo de irritante. Entre tantos destaques, é de estranhar que Wakanda e todas as figuras ao redor do Pantera Negra (Chadwick Boseman) fiquem em segundo plano mesmo fornecendo o cenário para a guerra que, tamanha escala, beira àquelas de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei por seus aspectos técnicos e emocionais.

Posto que o filme, a princípio, parece depender de acontecimentos vistos nos títulos anteriores (podendo desnortear o espectador que deixou passar um ou outro longa pelo caminho, ainda que se faça bastante compreensível) e que ainda necessite utilizar uma cena pós-créditos para manter a assiduidade do público com os próximos lançamentos enquanto o excesso de computação gráfica ocasionalmente deixe a obra menos tátil, Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War) é um superlativo passo em sua delimitação desse audacioso fenômeno cinematográfico que pode encontrar seu desfecho no ano a seguir, mas não há dúvidas de que o Marvel Studios conquistou a confiança de seus espectadores que, excetuando um ou outro vício formulaico, não vão se queixar de que estes filmes sejam uma fonte interminável de entretenimento.


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