domingo, 29 de outubro de 2017

Thor: Ragnarok | CRÍTICA


Não há o que discordar quando dizem que a franquia de Thor é a menos estimada entre os fãs do Universo Cinematográfico da Marvel, com sua parcela de culpa recaindo no excesso de piadinhas sem graça fora de hora ou em sua tentativa de narrativa épica cujo roteiro não fazia jus a tal proposição, predominando uma pieguice destoante das demais (e bem-sucedidas) produções do estúdio, até porque nunca demandaram arcos dramáticos e personagens complexos. Sua continuação de 2013 e os dois Vingadores proveram bons momentos ao herói, apesar de o todo irônico Loki roubar as cenas todas as vezes em que aparecia e o próprio universo do protagonista carecer de uma identidade própria – até então, parecia uma mistura de um épico genérico grego com elementos shakesperianos somados a visuais descartados de um O Senhor dos Anéis ou Game Of Thrones. De olho no sucesso de James Gunn com seus volumes de Guardiões da Galáxia, ousar era preciso para que o terceiro filme do Deus do Trovão conseguisse almejar êxito semelhante e Thor: Ragnarok acerta em sua radicalização que, finalmente, torna o personagem digno de sua velha alcunha dos gibis.


Havia um quê de decepção a partir do momento em que a Marvel anunciara o neozelandês Taika Waititi para dirigir a nova aventura; para muitos, um sinal de que a Casa das Ideias tinha se rendido de vez à comédia e aos clímaxes resolvidos com gags leves e positivas para atenuar toda a árdua jornada de cada herói apresentado ou ainda por dar as caras. Entretanto, é notável a diferença de quem está acostumado a rodar produções do gênero (e o bom, porém megalomaníaco, falso-documentário O Que Fazemos Nas Sombras dá estofo à competência de Waititi) e sabe dosar as piadas no momento certo ao invés daqueles que se viram forçados a acatar as imposições da ortodoxa cartilha do estúdio. Em outras palavras, Thor: Ragnarok é uma soma de vários acertos que não só começam pela adição de 'Immigrant Song' entre a enérgica trilha sonora de Mark Mothersbaugh ou ainda a certeira escalação de Cate Blanchett como a vilã Hela, mas também pela renovação dos figurinos, pela vivacidade de cores neon nos cenários e, talvez seu artifício mais ilustre, por recorrer ao deboche para romper com todo aquele ar pomposo que os entusiastas da mitologia nórdica levam a sério até demais. Para Waititi e para os roteiristas, é como se Thor: Ragnarok fosse um daqueles games de aventura ou de RPG em 2D das primeiras gerações de consoles que atiçavam a imaginação de seus jogadores que tanto sonhavam em salvar o jogo onde paravam, restando se revezar entre um herói obstinado, um irmão (adotado) que tem o hábito de trapacear, aquele amigo (brutamontes) do trabalho e com uma guerreira amargurada que hesita ajuda, além de um breve auxílio de um mago conjurador de portais, para passar todas as fases derrotando as forças do mal em sequência e assim aproveitar o entretenimento por inteiro.



A trama discorre um bom equilíbrio entre o universo fantástico do personagem e seu novo viés cômico que, embora traga um bom número de situações com os personagens, ainda transmite uma sensação de insaciabilidade a julgar por algumas passagens tratadas apenas na superfície. A busca de Thor (Chris Hemsworth) pelas Joias do Infinito foi um fiasco a ponto de trancafiá-lo nos infernais calabouços do demônio Surtur, o que faz com que descubra que as coisas em Asgard andam levianas até demais, fruto do reinado atrapalhado de Loki (Tom Hiddleston) que expulsou Odin (Anthony Hopkins) para algum lugar da Terra, abrindo a deixa para que Hela ressurja e provoque seu esperado caos por onde quer que ande com seu rastro de morte para trás. Pária no sucateiro planeta Sakaar, Thor está a mercê do irreverente Grão-Mestre (Jeff Goldblum, hilário!) e da bêbada Valquíria (Tessa Thompson) na arena de gladiadores, tendo que encarar um Hulk (Mark Ruffalo) que se acostumou com o luxo de suas vitórias consecutivas e já nem pensa em salvar o mundo, quiçá o universo – pior ainda é voltar para a sua franzina forma de Bruce Banner, sem contar que a canção de ninar de Vingadores: Era de Ultron tampouco surte efeito. No meio disso tudo, heróis caem enquanto outros são a única esperança para o povo e até vilões têm a chance de repensar em seus atos antes do final prenunciado. Como bem diz o Deus do Trovão para Loki antes de surrupiar uma nave, sempre existe a opção de ser algo a mais; frase que se reflete também nas boas mudanças aplicadas no filme.



Não por menos, Hemsworth brilha por finalmente dominar seu personagem que tanto lhe foi duvidado no passado, agora favorecido pelo roteiro que lhe confere mais poderes e um bom humor que chega a estranhar, mas logo se torna a força-motriz da diversão da obra. Quem se diverte também é Cate Blanchett na composição de sua vilã, tão cruel e estilosa que lidera com facilidade o panteão de vilões como poucos, sendo uma pena que a pirotecnia do terceiro ato diminua e até bagunça o firmamento de seus atos nefastos. Tessa Thompson prova de uma vez por todas ter um carisma radiante mesmo se fazendo de difícil e é uma pena que Karl Urban e Idris Elba fiquem contidos a seus próprios arcos reduzidos, porém pontuais.

Deixando a desejar por sua decupagem de movimentos de câmera e cortes simplórios por ser refém da fórmula que subestima o espectador que só quer diversão, por outro lado, esses deméritos não apagam os momentos preciosos como toda a sequência inicial contra Surtur e a fuga do dragão ou o duelo na arena e todo o seu design de produção radical (dentro dos limites), tal como seu elenco impecável e os outros aspectos ressaltos (e aqueles não ditos aqui para não comprometer sua experiência), não há dúvidas de que Thor: Ragnarok conseguiu a façanha de ser o melhor filme terciário da Marvel até o momento. Que isso não seja um delírio da baixa expectativa que se tinha (até o lançamento do teaser trailer), mas quem sabe o final aqui encenado traga um novo e acertado reinício para que o seu herói deixe de ser subestimado.


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