quinta-feira, 31 de maio de 2018

João de Deus: O Silêncio É Uma Prece | CRÍTICA


Mescla de documentário biográfico e institucional, João de Deus: O Silêncio É Uma Prece retoma a presença do Espiritismo no Cinema Brasileiro com o intuito de mostrar que a religião mantém e parece crescer do país para o mundo. Dirigido por Candé Salles, o filme possui uma textura humilde fazendo jus à personalidade do médium de Abadiânia, no interior de Goiás, ainda que faça um retrato seguro demais para se dar o direito de fazer hipóteses sobre o seu personagem-título.

Na casa de seus setenta anos, João Teixeira de Faria se movimenta, fala e gesticula por onde passa com uma força característica de um homem décadas mais novo. Se isso é decorrente de uma boa saúde ou da própria influência espírita, nada diminui o fato de João de Deus ser uma das pessoas mais benquistas da cidade onde atende na casa de Dom Inácio de Loyola, um retiro espiritual onde pessoas de qualquer condição, raça e credo são tratadas sem distinção e partilham da paz promovida pelas correntes de silêncio. Acompanhando o médium em seu dia-a-dia, Salles faz questão de mostrar que João é gente como a gente, humilde e sociável: para o carro pra conversar com um amigo motoqueiro, partilha o pão e o café da casa, visita velhas amizades nas cidades vizinhas, beija a esposa com paixão e afirma que a filha é a menina mais linda do mundo. Tudo é praticamente explicado por depoimentos, do próprio ou de outrem, que vão desde pessoas que foram ali curadas a estrangeiros do mundo todo.

Sem se ater necessariamente a um dos modos de representação do documentarismo, Salles não só acompanha seu personagem e utiliza algumas imagens de arquivo e vários depoimentos em off ou em planos frontais, como recorre a narrações com a voz eloquente e pacífica de Cissa Guimarães, uma frequentadora da Casa, sem contar que a câmera é explícita ao mostrar as cirurgias feitas pelo médium (prepare-se para fechar os olhos mais de uma vez). Por sinal, é precisamente nesse ponto que o documentário deixa suas indagações de lado para testemunhar os feitos de João com seus pacientes sem jamais utilizar a linguagem cinematográfica a favor da construção de um ritual com proporções simétricas e que sugiram um ambiente divino afora o sincretismo religioso evidente nas pinturas católicas e espíritas ao lado de grandes cristais. O amadorismo irregular da filmagem com câmera DSLR também se faz uma grande ressalva ao amenizar a qualidade da imagem.

Em outro momento, o cineasta registra (todavia distante) um conversa entre Camila Pitanga e o médium, mas fica evidente que aquele papo entusiasmado poderia ter um tempo maior de exposição na sua linha de montagem, especialmente por trazer relatos tão ricos e pelo fato adicional de Pitanga ser uma atriz carismática. A única proposta de antítese surge quando João vai a São Paulo para operar um câncer em seu estômago. Em falas rápidas, a classe médica reconhece o trabalho de João de Deus ainda que salientando a importância da consulta com um profissional – e o próprio operado recomenda o mesmo, uma vez que ele só é um médico quando entremeia para uma entidade.

Considerando alguns fatores particulares, tendo familiares que já visitaram a Casa Dom Inácio e que até mesmo trabalham na Europa divulgando os feitos, até então, não era de meu conhecimento que o trabalho feito em Abadiânia seja tão influente e difundido mundo a fora e que, ao contrário de um certo "bispo" que apelou para o espetáculo de ingressos esgotados e sessões vazias (Nada a Perder), João de Deus: O Silêncio É Uma Prece ainda pode conter uma cara de propaganda, mas com um intuito nobre de se praticar o bem.




Nenhum comentário:

Postar um comentário