quarta-feira, 14 de julho de 2021

VIÚVA NEGRA – além da homenagem | CRÍTICA



Basta percorrer algumas notícias de anos atrás para atestar que Kevin Feige, o poderoso produtor por trás do Marvel Studios, se viu encorajado a realizar um longa-metragem protagonizado por uma super-heroína somente mediante o êxito de Mulher-Maravilha. Na agenda de tantos projetos do estúdio ainda em 2017, era curioso que apenas o título de Capitã Marvel estava na lista, ainda que para ser lançado só dois anos depois, logo quando personagens femininas já familiares ao público como a Viúva Negra e Feiticeira Escarlate poderiam ser mais do que coadjuvantes. A trajetória de Natasha Romanoff (Scarlett Johansson) ao final de Vingadores: Ultimato comprovou que a super-espiã era bem estimada pelos espectadores a ponto de a ideia de uma aventura solo, entretanto póstuma, estar em produção soava mais como uma forma de aproveitar tal comoção. No fim das contas, porém, o que era pra ser apenas uma homenagem, se torna algo maior e não há o que contestar mediante uma bem-vinda adição.

Se por um lado Viúva Negra chega anos atrasado na linha do MCU (isso sem considerarmos os adiamentos acarretados pela pandemia), acaba que o filme se faz ótimo para dar o pontapé cinematográfico da Fase 4 (apesar de que as séries no Disney+ saíram na frente) e por um motivo que vai se tornando mais óbvio passado os minutos. Aqui, voltamos a conflitos menos colossais, aos tempos de vilões apenas humanos cuja vilania pode atingir até milhões tanto quanto os planos de Thanos, só que com o típico sotaque russo clichê. Dirigido por Cate Shortland e roteirizado por Eric Pearson (Thor: Ragnarok) a partir do argumento escrito por Jac Schaeffer (WandaVision) e Ned Benson, o longa traz mais do que uma trama dupla de ação de contra-espionagem e vingança, mas uma narrativa que consegue conciliar resiliência e ternura com maturidade. Estaria a ocasional "fórmula Marvel" mudando pra valer?

Treinador e Natasha Romanoff em VIÚVA NEGRA
(© Marvel Studios/Reprodução)


É verdade que Scarlett Johansson, uma competente atriz tão versátil (e injustiçada no Oscar por História de um Casamento), merecia mesmo um filme pra chamar de seu mais do que as trocas de perucas a cada aventura Marvel em que esteve creditada. Aqui, suas tiradas afiadas no humor e lutas como foram bem apropriadas em Capitão América: O Soldado Invernal (e há uma forte influência deste) se sustentam tanto sozinhas ou muito bem acompanhadas por Florence Pugh, que já coleciona performances icônicas nos recentes Midsommar Adoráveis Mulheres. Muito mais do que um elo afetivo para a protagonista, a Yelena de Pugh é radiante em todas as suas cenas e garante fácil seu apreço dos fãs em seu futuro na Marvel, sem contar que David Harbour e Rachel Weisz são ótimos mesmo com o pouco que se pedem deles. Depois de Mulher-Maravilha 1984, é um deleite e tanto ver atuações guiadas por um bom texto!

Melina (Rachel Weisz) em VIÚVA NEGRA
(© Marvel Studios/Reprodução)

Na ruptura dos dogmas da Marvel, se sobressaem os detalhes a favor de uma sensibilidade que só viemos a ter, de certa forma, em WandaVision. Na sequência de abertura que retrata o misto de serenidade e curiosidade infantil perante vaga-lumes na natureza, o conforto do estilo de vida estadunidense é estimado pelas meninas Natasha e Yelena, onde os versos de "American Pie" cantados por saudosismo por essa ganham um significado muito maior quando a dicotomia a seguir vem à tona quando os russos ordenados pelo General Dreykov (Ray Winstone, curiosamente bom) maltratam as crianças. Não que as políticas dos EUA sejam gentis com estrangeiros (quem dera), mas é admirável que a equipe de realizadores atribua um papel dramático para a música de Don McLean. No mais, chega a ser impressionante que o estúdio permita uma fotografia mais contrastada por conta do veterano Gabriel Beristain (Agente Carter, Caravaggio) e entregue planos admiráveis, especialmente durante as passagens na Sala Vermelha com direito a ângulos a pino e uma monocromia de vermelho e preto icônica da personagem.


(© Marvel Studios/Reprodução)

Suficientemente dosado na ação, Viúva Negra (Black Widow) tem nas passagens por Budapeste e na missão de resgate numa prisão seus melhores momentos, o que é uma pena que o clímax se torne um amontoado de destruição encenado por recursos digitais do que um visível esforço físico de direção e atrizes – o que não quer dizer que o impacto seja minimizado. Pouco a pouco, percebe-se que há toda uma conveniente história de libertação feminina por trás de seus atrativos principais e, apesar de utilizar a fantasia que o gênero da espionagem permite (sem contar que Scarlett Johansson defendeu Joss Whedon mesmo com todas as acusações apontadas para o responsável por atitudes sexistas em Vingadores e no garrancho de Liga da Justiça), demonstra que a Marvel nos cinemas, felizmente, não está fechando os olhos para uma causa que uma considerável parcela de seu público ainda faz questão de desdenhar. Elegias tardias à parte, o estúdio aproveita para revigorar a sua essência a tempo – e faz por bem. 



 

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