quinta-feira, 19 de março de 2020

A Viagem de Chihiro | CRÍTICA


A viagem de Chihiro é, muito provavelmente, o filme mais famoso do diretor Hayao Miyazaki e do Studio Ghibli como um todo, sendo o único filme de animação em língua estrangeira a ganhar o Oscar. Com a chegada de diversos filmes do estúdio para a plataforma de streaming Netflix, A Viagem de Chihiro é um ótimo ponto de introdução para aqueles que ainda não conhecem as obras feitas pelo estúdio japonês.

O filme conta a história de Chihiro Ogino (Rumi Hiiragi), uma menina de 10 anos que se vê obrigada a mudar de cidade com seus pais para o interior do Japão. Ao se perder na estrada, porém, seu pai acaba levando a família para a fronteira entre os mundos material e espiritual. É na representação do mundo espiritual, baseado na religião xintoísta, que o filme mais impressiona. O estilo característico de animação do diretor dá vida de forma orgânica a diversos tipos de seres que variam do fofo ao bizarro, sem nunca perder o charme de um filme feito para crianças de 10 anos, mas que também não subestima a capacidade destas crianças. Chihiro como protagonista é uma garota que começa o filme perdida e assustada, uma criança teimosa que não queria se mudar e que se vê sem poder de escolha sobre o que fazer na situação onde se encontra – seus pais não a escutam e ela não entende como funciona o mundo estranho onde ela foi parar. A determinação de salvar seus pais e a coragem de ajudar a todos que possam precisar dela, porém, são as qualidades que a fazem encarar um ambiente que é hostil apesar de maravilhoso, tornando a aventura em um verdadeiro rito de passagem.

Alguns dos espíritos que frequentam a casa de banho de Yubaba (Reprodução)

Os espíritos em si são uma atração a parte do filme. Personagens caricatos com formas e trejeitos únicos, todos parecem mostrar a Chihiro lados bons e maus, confundindo a criança que está tentando se adaptar a sair de um mundo físico e infantil para um mundo adulto e espiritual. Seu primeiro encontro é com o garoto Haku (Miyu Irino), um aprendiz de bruxa que diz já conhecer ela e tenta ajuda-la a voltar para seu próprio mundo. Para isso, precisa trabalhar na casa de banho de Yubaba (Mari Natsuki), a feiticeira que controla a região e que tem o poder de devolver os pais de Chihiro, transformados em porcos por comerem comida dos espíritos. É trabalhando na casa de banho que Chihiro vai conhecer diversos espíritos diferentes. Entre trabalhadores e clientes, todos são desenhados vibrantemente e mostram a variedade de seres que existem nesse mundo fantástico. Alguns se tornaram icônicos, sua imagem tendo um alcance ainda maior do que o filme em si, como é o caso do espírito chamado de “Sem-Rosto”.


Outro aspecto memorável do filme é sua trilha sonora, feita pelo compositor Joe Hisaishi. Hisaishi colaborou com diversos filmes do Studio Ghibli desde sua concepção, tanto para Miyazaki quanto para outros diretores do estúdio. A trilha que compôs para A Viagem de Chihiro é uma ponte entre o simples e o fantástico, elucidando os mistérios, belezas e perigos do mundo espiritual através da performance da Orquestra Filarmônica Novo Japão.

A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi, 2001) é um filme exemplar quando se trata do potencial que existe na animação, de se fazer cinema de forma acessível a todas as idades, impressionante no uso de suas técnicas e profundo em sua execução. Em se tratando de cinema de animação, é o filme fundamental para quem tem interesse no gênero. Se tratando de cinema de uma forma geral, está entre os mais belos filmes de crescimento e passagem da infância para a adolescência.



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