sexta-feira, 5 de março de 2021

WANDAVISION – por um escape dessa caótica realidade | CRÍTICA

Elizabeth Olsen em WANDAVISION (Marvel/Reprodução)

Boa parte da influência que a Marvel Studios detém hoje se deve muito aos conteúdos televisivos produzido ao longo das décadas, sobretudo as suas animações que fizeram gerações resgatarem os quadrinhos e daí para os tantos filmes feitos por outras companhias até e durante o desenvolvimento de seu próprio selo e universo cinematográficos. Ainda que inicialmente propostos a contar histórias paralelas daquelas dos Vingadores, derivados como Agentes da S.H.I.E.L.D. e, posteriormente, todas aquelas séries encabeçadas pela Hulu (Os Fugitivos) e pela Netflix (de Demolidor até culminar na desastrosa Os Defensores) desanimavam os espectadores que ficaram mais do que habituados a esperar por referências da linha narrativa dos filmes e, pouco a pouco, tomavam seu próprio rumo com tramas aleatórias e episódios de durações insuportáveis.

A necessidade por conteúdos originais do Disney+, portanto, foi extremamente benéfica para o live-action da Marvel na TV. Enquanto Vingadores: Ultimato concedeu as deixas para novas tramas, acabou que WandaVision saiu na frente e exibiu um modelo formidável para o MCU no streaming, além de se aventurar em uma temática que os filmes dificilmente se arriscariam em se aprofundar.

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A realidade em sintonias

Elizabeth Olsen e Paul Bettany em WANDAVISION
(© Marvel/Reprodução)

Criada por Jac Schaeffer (argumentista em Viúva Negra) e com a maioria dos episódios dirigida por Matt Shakman (The Boys, Game Of Thrones), WandaVision parecia uma verdadeira incógnita a julgar pelos seus primeiros capítulos apresentados no antigo formato 4:3 e uma trama bobinha em sua emolução das sitcoms de casais das décadas de 50 e 60. Em suas entrelinhas, porém, havia algo de perturbador acontecendo na vizinhança monocromática de Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) que logo chamaria atenção dentro e além do perímetro da pacata Westview, desde indagações do próprio sintozoide e da vizinha Agnes (Kathryn Hahn) até a chegada de alguns rostos conhecidos para resolver a situação que aparenta ser pior do que a rotina do casal.

Em sua extrapolação de mistérios de respostas postergadas sempre para cada próximo capítulo, e daí recorrendo para a inevitável adição de cena pós-créditos, a série avançou décadas em suas referências de comédias televisivas além de aproveitar a estética dos devidos momentos para fazer não só brincadeiras com os formatos narrativos como homenagens aos quadrinhos (as fantasias no capítulo "Um Halloween Assustadoramente Inédito") e as próprias mudanças no aspect ratio, inferindo que todas as passagens que acontecem no formato widescreen anamórfico se tratam dos eventos reais que seguem os eventos assim vistos nas aventuras cinematográficas.

Elizabeth Olsen e Paul Bettany em WANDAVISION
(© Disney+/GIPHY/Reprodução)


Apresentando majoritariamente uma movimentação de câmera limitada a considerar o estilo de filmagem das cenas principais, além do meticuloso trabalho do design de produção em replicar objetos de cenas de seis décadas, há uma ênfase em atribuir ao figurino das personagens as suas devidas e emblemáticas paletas de cores e até traços das vestimentas vistos nas páginas. Ora, se Wanda e Visão variam nos tons de vermelho, amarelo e verde, os meninos Billy (Julian Hilliard) e Tommy (Jett Klyne) vestem peças que reforçam as características dos seus trajes e poderes nas HQs, vide o casaco e calça esportivos verdes que o último usa. De forma semelhante acontece com a roupa que Monica Rambeau (Teyonah Parris) surge em seu confronto com Wanda e até o fúnebre roxo das vestes de Agnes não é gratuito. 

Do luto ao caos


Elizabeth Olsen e Paul Bettany em WANDAVISION
(© Disney+/GIPHY/Reprodução)


Tornando-se a série de estreia da Marvel Studios no Disney+ por conta da vigente pandemia da COVID-19 que atrasou a produção de Falcão e o Soldado Invernal, acaba que WandaVision se fez necessária não só para o estúdio, que estava devendo mais títulos encabeçados por mulheres, como para o desenvolvimento da protagonista que sempre ficou sublevado à urgência de ação nos longas Vingadores (bem como Capitão América: Guerra Civil). Passada a ode ao paternalismo de Ultimato, WandaVision é um respiro ao lapidar a personalidade da heroína em seus nove episódios não apenas para entregar a sua tão aguardada alcunha, mas para transmitir toda a sua humanidade muito que moldada por consecutivos eventos de luto. Não que aqui haja monólogos depressivos, porém o suficiente para ser algo digno de empatia. 

Daí a recorrência, por anos, ao seu escape à ficção inofensiva das comédias na TV. Ao longo do 8º capítulo, os closes de Matt Shakman nos rostos agraciados dos personagens assistindo aos episódios não poderia ser menos do que uma elegia ao poder da imaginação em nos reconfortar com histórias e até mesmo a sequência da chegada de Wanda em Westview se torna um reflexo acidental do mundo atual em seu pesar do isolamento e de tantas perdas.

Kathryn Hahn em WANDAVISION
(© Disney+/GIPHY/Reprodução)

Ainda que os roteiros vacilem em cenas muito expositivas (a ponto de ter falas que repetem o que aconteceu visualmente num momento anterior), os episódios revelam que Paul Bettany tem tanto carisma quanto vai bem na comicidade e que Kathryn Hahn é uma ladra de cenas de primeira – e faz por direito. Elizabeth Olsen é apaixonante na alegria e na tristeza – e como há de se sobressair no papel e como atriz daqui pra frente! Num todo, se WandaVision era um projeto incapaz de ser levado a sério, terminou comprovando para o próprio estúdio que é possível – e é ótimo – fugir das próprias regras.




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