segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Midsommar: O Mal Não Espera A Noite | CRÍTICA


No que tange ao Cinema de Horror, por que é preciso ocorrer a ausência de luz para que a crueldade (em suas diversas formas de ação) venha à tona? Se o vampiresco conde Orlock aparecia antes em sombra do que fisicamente perante o quarto da donzela no Nosferatu de F.W. Murnau há quase um século, o terror ganhou novas formas de apresentação e alegorias ao longo desse tempo, ainda que uma geração mais jovem de cineastas procure replicar as fórmulas do passado com o que tecnologias recentes podem oferecer – não só uma suposta melhoria nos visuais de criaturas, mas na parte técnica que vem rendendo os tantos planos-sequências e demais atributos fotográficos e sonoros que só tendem a caprichar a experiência aterrorizante, ainda que majoritariamente situada em períodos noturnos e sujeita aos mesmos estratagemas narrativos.

Ari Aster, cineasta que começou a correr por fora do núcleo do terror mainstream de James Wan (Invocação do Mal) e da Blumhouse Productions (Nós e Sobrenatural, entre outros) com o seu relativamente aclamado Hereditário (2018), cada vez mais parece um desses tipos raros de cineastas que surgem a cada década dispostos a alterar as regras do jogo conforme as suas várias pretensões de se portar grandiloquente com uma trama de inspirações pouco aproveitadas até agora. Sendo assim, Midsommar desvenda os antigos rituais nórdicos para incutir o pavor nos millennials a presunçosos passos lentos enquanto seu diretor comprova que o terror se dá bem às cores e ao céu ensolarado.


A trama, também roteirizada por Aster, circunda a jovem Dani (Florence Pugh) que, abalada por uma tragédia familiar, é convidada pelo reticente namorado, Chris (Jack Reynor), a viajar para o interior sueco para participarem das festividades do solstício de verão enquanto trabalham em uma procrastinada dissertação sobre os costumes da reclusa comunidade que oferta a celebração há noventa anos. Sendo americanos que não dispensam a lisergia inclusa nas típicas "eurotrips" e a receptividade dos suecos tão risonhos, dia após dia, o grupo começa a estranhar a distorção dos eventos que lá se seguem tal como a ausência gradativa de cada colega. Já Dani, insegura por conta do namoro que também é posto a uma prova de fogo, parece encontrar em todos aqueles atos de insanidade um expurgo para todas as suas dores recentes.

Mesmo com tal pano de fundo exótico, a verdade é que Midsommar não deixa de lado as convenções do gênero, por mais que o ritmo catatônico de algumas cenas e diálogos entojados infira um quê de revolucionário. Pervertidos e sabichões são os primeiros a serem eliminados para o convencional acréscimo de conflitos enquanto as cenas preparam o espectador para o despudor de violência, sangue e sexo. É mérito de Aster e sua equipe criativa também pelo zelo na transcrição da mitologia elaborada para a história, algo que nos faz redobrar a atenção para os cenários mesmo que os significados de tantas runas entalhadas nos pareçam alheios – bastam alguns planos-detalhes em pinturas em livros e paredes para pressupormos aonde essa aventura vai chegar.

(© A24/GIPHY/Reprodução)

E como tarda a chegar. Na sucessão de escândalos macabros que reforçam o terror psicológico, Aster nos recompensa com uma primorosa mixagem de som que, em conjunto com a elegante direção de fotografia de Pawel Pogorzelski (também egresso de Hereditário), faz com que a dilatação temporal seja também um deleite cinematográfico nesta oportunidade de ver movimentos de câmera inspirados (a sequência da dança, por exemplo) e sem receios de acatar uma paleta de cores mais saturada.

(© A24/GIPHY/Reprodução)

Extenuante, Midsommar: O Mal Não Espera A Noite ainda expõe reflexões válidas, embora subliminares perante todas as demais pretensões apelativas, sobre a emancipação feminina (notem o comportamento das suecas da comuna e a progressão da jornada de Dani) quanto aos delírios das religiões que nunca medem os pesos de suas ações em sua constante auto-indulgência – ritos de libertação e êxtase podem ser catárticos para uns, mas não quer dizer que pareçam mórbidos a outros olhos.



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