sexta-feira, 16 de julho de 2021

LOKI – imprevisível e surpreendente | CRÍTICA (1ª Temporada)


Passadas duas séries exibidas exclusivamente no Disney+, o Marvel Studios parece ter encontrado em tal janela de exibição um formato que não diminuiu em nada o seu fenômeno cinematográfico. Muito pelo contrário, só expandiu os burburinhos pelas redes na constante geração de teorias sobre o futuro daquele universo de aventuras que não se cansa de crescer. Embora Falcão e o Soldado Invernal fora decepcionante em partes, ainda mais pareado aos impactos de WandaVision, ao longo de suas seis semanas de exibição, Loki entrou na fila e furou a mesma conquistando audiências não só pela sua qualidade artística, mas principalmente por dar passos significantes na empreitada narrativa da Fase 4 do MCU e, diga-se de passagem, com uma gloriosa estreia.

Criada por Michael Waldron (Ricky and Morty) e dirigida por Kate Herron (Sex Education), Loki dá para a Marvel o seu primeiro programa disposto a quebrar expectativas consecutivamente – e nada mais propício ao deus da trapaça do que isso, ora pois. Foram dois anos de espera para saber o que o então-vilão de Os Vingadores (interpretado com maestria por Tom Hiddleston) faria com o Tesseract que Tony Stark e turma dos eventos de Ultimato buscavam "pegar emprestado", mas a alegria do meio-irmão de Thor durou pouco enquanto os primeiros momentos do episódio inaugural já concediam pura diversão ao espectador. Um vitral demoníaco durante uma investigação de Mobius (Owen Wilson) fez fãs levantarem as hipóteses sobre uma aparição de Mefisto, mas, de novo e a cada próximo episódio, passamos a ser guiados por linhas narrativas imprevisíveis e sempre jocosas de acompanhar até o seu derradeiro capítulo.

Concepção dos cenários com iluminação prática chamou a atenção ao longo da série (© Marvel/Reprodução)

Todavia nos seja estranho que o comportamento do protagonista tenha mudado tão bruscamente apenas por ver seu arquivo pessoal de acontecimentos futuros não menos que fulminantes, a real é que ganhamos aqui uma variante fantástica do personagem que, todavia larápio a partir de qualquer brecha, vai se tornando digno de empatia a cada vez que revê seu caráter e apenas busca sair daquela situação tão adversativa imposta pela TVA gerida pela juíza Renslayer (Gugu Mbatha-Raw) e evitando ao máximo o "bastão de poda" da durona B-15 (Wunmi Mosaku). A empreitada no estilo buddy-cop movie colocando Loki e Mobius como parceiros de trabalho improváveis também é outro divertido acerto, ainda mais que ambos os atores dominam o bom humor quando se é exigido. Ainda assim, as coisas não se resolvem tão fácil e mediante as ameaças de outra variante cuja inteligência não se subestima. Ponto aí para Sophia Di Martino, que não se deixa ser intimidada pelo elenco de astros embora desconhecida para o grande público e não tarda para ganhar o apoio do mesmo em sua causa.


Propósitos gloriosos
 

Esperava-se um pouco mais da variante "Presidente Loki", porém… (© Marvel/Reprodução)

Afora todo o entretenimento e explosão de hipóteses impulsionado por esse prelúdio da Marvel ao esperado multiverso cinematográfico, Loki se apresenta facilmente como a produção mais requintada do estúdio em seus quesitos artísticos até agora. A preferência pela paleta de cores ocres concede aos cômodos da TVA um recinto estranhamente deslocado do tempo, ainda mais quando o design de produção de Kasra Farahani (diretor de arte em Aves de Rapina Capitã Marvel) aloca adereços retro-futuristas numa mescla que nos remete a lembranças de filmes como O Grande Hotel Budapeste e clássicos de Jacques Tati (Meu Tio e Playtime). 


A parceria Owen Wilson-Tom Hiddleston é sempre cativante. (© Marvel/Reprodução)


A extravagância dos cenários e cores também se estende a um bar no último trem de Lamentis, no refúgio de variantes que reforça as tonalidades principais do personagem e também na investida ao terror gótico com os interiores de um castelo no finale, "Por Todo Tempo. Sempre". De qualquer forma, todo o zelo dos cenários poderia ser podado com uma fotografia sem graça tal como foram em muitos títulos prévios do Marvel Studios, mas isso sequer cogita acontecer aqui. 


Loki e Sylvie descobrem afinidades no trem de Lamentis (© Marvel/Reprodução)


A direção de fotografia de Autumn Durald Arkapaw (que já tinha me fascinado em O Sol Também é Uma Estrela e que, agora, me deixa bem mais empolgado por Black Panther: Wakanda Forever) trata de valorizar cada um desses aspectos cênicos com um competente controle de luz, cores e sombras tão raro de se ver (insisto) nos fotogramas das produções anteriores. Não só porque essa atmosfera sombria atrelada a decupagem de Herron confere uma bem-vinda dubiedade à trama, a profundidade de campo empreendida em quadros abertos evidenciam algumas ações ocorrendo em segundo plano também. 


As cores empregadas no interior do castelo no 6º episódio remetem a paleta do figurino icônico
do personagem apresentado na cena. (© Marvel/Reprodução)

Outro destaque fica por conta do emprego do ângulo contra-plongée em boa parte dos planos. Atrelado à ideia de colocar um ou mais personagens em situação comumente majestosa ou acima do conflito imposto, tal inclinação da câmera para cima em seu posicionamento baixo revela a iluminação prática dos cenários, somando outro mérito da equipe e um alívio ao notar que nem só de cenários digitais vivem essas histórias da Marvel.


Variantes de Loki marcaram o divertimento no 5º episódio. (© Marvel/Reprodução)

Da trilha sonora composta por Natalie Holt tão carregada de mistério nos timbres à jocosa participação de Richard E. Grant como uma variante "clássica", sem nos esquecermos (e omitindo spoilers) da expositiva introdução do importante personagem de Jonathan Majors nesse conjunto de obra que lembra até os delírios fantásticos de Dr. Who com uma filosofia a la Matrix, Loki teve em seu primeiro ano uma constância de surpresas – e que seja assim por todo o futuro cinematográfico da Marvel. Afinal, não é preciso ser pontual para se espelhar nesse personagem que, previamente vil, cuja transitoriedade não deixa de ser uma força criativa. 






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