quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

O Caso Richard Jewell | CRÍTICA


Clint Eastwood é um cineasta incansável mesmo, especialmente se for para defender seus ideais. Enquanto Martin Scorsese ganhou notoriedade em 2019 mais por seus comentários direcionados à qualidade dos filmes de super-heróis da Marvel do que por seus créditos como diretor de O Irlandês, o veterano Eastwood segue em sua empreitada na busca de histórias de verdadeiros heróis americanos que romperam padrões em prol do bem-estar e da segurança de outras pessoas, controvérsias à parte. Em uma retrospectiva de uma década, veteranos de guerra, pilotos e até um figurão do FBI foram retratados na busca da propagação dos bons valores ao público, algo que tende a ser repetido, com mais carisma e menos panfletagens, em O Caso Richard Jewell.

Nos idos da década de noventa, mais precisamente em meio às Olimpíadas de Atlanta de 1996, muitos diriam que o tipo do segurança de Richard Jewell o faria qualquer coisa menos um atlético herói: com pouco mais de trinta anos, relativamente obeso, de poucos amigos e ainda morando com a mãe, o sujeito era tão caxias com princípios de segurança que acabava não durando muito tempo por onde passava. Ainda assim, mesmo com a estabilidade da Era Clinton e anos antes de toda a precaução triplicada após o atentado às Torres Gêmeas, toda a atenção é necessária em se tratando de um evento mundial e, se não fosse pela insistência de Jewell, o atentado no Centennial Park teria acarretado em mais vítimas. De quase nada a herói súbito, Richard se vê dando entrevistas e há quem tenha visto nas coincidências uma chance de deturpar imagens… e ainda lucrar com isso.

(© Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Reconstituindo a história a partir do artigo "American Nightmare – The Ballad of Richard Jewell", publicado por Marie Brenner na Vanity Fair, é curioso como o roteiro de Billy Ray (Capitão Phillips), além do mero retrato do "herói por acaso", faz um paralelo com a propagação das fake news e o impacto negativo que estas acarretam sobre as vidas das pessoas diretamente relacionadas com o mínimo de verdade que há nas manchetes tendenciosas, todavia a narrativa também siga um caminho semelhante no delineamento de suas personagens perante o público. Exemplo maior disso é a jornalista inescrupulosa vivida por Olivia Wilde que cai no clichê de ser a loira sedutora que parte para cima do agente do FBI (Jon Hamm) em troca de informações para tecer seu furo de reportagem, tão explosivo quanto. Há também uma certa forma de denúncia no tratamento agressivo com que a mídia e departamentos de segurança investem sobre o referido suspeito, inclinados apenas a fabricar suas parcelas da verdade.

(© Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Sempre com um olhar atento, Clint Eastwood é minucioso ao reencenar os momentos do atentado na praça ao evocar o fator humano apontando a câmera não apenas em seu protagonista, mas principalmente nas pessoas ao redor que, por ventura, foram vítimas logo quando estavam ali para se divertir e registrar seus momentos em fotografia. Encontrando em Paul Walter Hauser um semblante bastante carismático e que não compromete em nada no papel principal, o diretor rege o conto com um perseverante bom humor e consegue incutir interesse e graça num assunto que, numa ótica apressada, se trataria de mais uma corroboração do privilégio branco mesmo com Jewell estando mais à margem da sociedade. Desta vez, enfim, Eastwood parece consciente de que o porte de arma não deixa de ser uma faca de dois gumes mesmo nas mais pífias das circunstâncias.

Contando com um dedicado e simpático Sam Rockwell vivendo o peculiar advogado Watson Bryant somado à firmeza singular com que Kathy Bathes consegue no equilíbrio entre o cômico e dramático (não por menos, os dois só tendem a aumentar o nosso interesse pelo tema proposto), é satisfatório ver a mídia retratada assumindo os seus erros (muito que a contragosto, é claro) logo quando alguns canais precisam adotar tais medidas considerando sua parcela de culpa após anos dando visibilidade a figuras polêmicas. Reflexões sociais a parte, é ótimo ver que Clint Eastwood acerta em tornar simples casos em contos realmente humanos e cativantes. 



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