quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

1917 | CRÍTICA


Conflito engendrado na intenção de encerrar todos os entraves territoriais que assolavam as potenciais nações da Europa no início do século XX, todavia ocasionando um rastro de destruição e milhões de mortos e feridos nesse processo, é fato que a Primeira Guerra Mundial foi uma das primeiras grandes batalhas a ser registrada pelas imagens em movimento gravadas em película e exibidas em cine-jornais, tão logo tendo seus capítulos bélicos romantizados por ficções ao longo das décadas passando por nomes prestigiados como Stanley Kubrick (Glória Feita de Sangue), por documentários revisitando a história ou, recentemente, servindo até de cenário para filme de super-heroína.

Enquanto todos compartilham da demonstração dos horrores causados por armas letais, além de toda a decadência subjugada aos soldados nas trincheiras, ainda assim, nem sempre uma decupagem e sua condensação temporal entregam uma completa experiência imersiva tal como a longa duração dos planos-sequências consegue projetar no espectador e, no inesperado de ações que o contra-campo cênico reserva, 1917 é definitivamente soberbo neste aspecto.

Dirigido por Sam Mendes, que divide a autoria do roteiro com Krysty Wilson-Cairns (série Penny Dreadful), a trama se esquiva do casual e grandiloquente objetivo de mostrar um didático panorama de guerra e a vitória perante inimigos para contar algo mais simples, mas não menos dispendioso para seus personagens. Incumbidos de entregar um importante aviso para o coronel de um pelotão num território avançado, os jovens cabos Blake (Dean-Charles Chapman, de Game Of Thrones) e Schofield (George MacKay, de Capitão Fantástico) precisam fazer o impensável para que a tarefa se concretize: atravessar a terra de ninguém e esperar que não tenha nenhum inimigo alemão no meio do caminho que, por si só, já reserva pilhas de escombros, cadáveres e todos os demais tipos de perigo que um campo de batalha costuma apresentar.

(© Universal Pictures/Divulgação)

A partir do meticuloso design de produção de Dennis Gasser (Blade Runner 2049), que atribui inúmeras características aos tantos cenários a céu aberto ou subterrâneaos apresentando, por exemplo, trincheiras que se distinguem não só por suas medidas, mas por deterem placas com nomes de ruas atribuídos, a mise-en-scène de Sam Mendes se faz sempre entre a tênue linha do suspense e de surpresas muitas vezes desfavoráveis à dupla de soldados, onde a ideia de registrar toda a ação em planos-sequências evita com que muitos acidentes próximos sejam previsíveis, todavia a trilha sonora de Thomas Newman prenuncia a sensação de urgência pela qual os garotos passam no campo. Com isso, o diretor é astuto em aproveitar primeiro e segundo planos do quadro provendo uma experiência completa da tensão que é estar praticamente sozinho em tamanhas situações desoladoras – reparem também que, quando a câmera se aproxima e destaca algo ou algum movimento dos cabos, isso poderá trazer implicações futuras na jornada. 

Cineasta que gosta de fazer conduções elegantes e que já tinha ensaiado um reverente plano-sequência na abertura de 007 Contra SPECTRE, Mendes retoma a parceria com o oscarizado diretor de fotografia Roger Deakins (Blade Runner 2049, 007 Operação Skyfall) para o registro épico do que pretende contar em 1917 guiando a câmera por terra e água, noite e dia. Como já era de se esperar do veterano profissional, que chega aqui à sua 14ª indicação ao Oscar, as imagens são de tirar o fôlego. Sem deixar de apresentar seus planos de assinatura delineando silhuetas de personagens na contra-luz, a paleta de cores ressaltada pelo fotógrafo vai de insaturados tons de azul, ocre e musgo para espelhar a decadência do front de guerra, onde os raros bosques e campos pacíficos com folhas de cerejeira ao vento não poderiam ser mais agradáveis aos olhos, retomando brevemente uma cor mais viva. A movimentação de câmera também é bem executada, mas tamanho tecnicismo acaba afastando o espectador do foco narrativo.

(© Universal Pictures/Divulgação)

Com isso, todavia apresentando participações pontuais de Colin Firth, Andrew Scott, Mark Strong, Benedict Cumberbatch e Richard Madden (ambos ótimos em seus poucos minutos de tela), a impressão que fica é que 1917, no fundo, não tem lá muito a emocionar com sua narrativa a não ser por toda a sua virtuose técnica que tende a justificar suas 10 indicações no Oscar, sua possível vitória no BAFTA e sua estratégica conquista no Globo de Ouro. Sem desmerecer sua contribuição pela releitura histórica, eis aqui um novo tipo de cinema de atrações. 



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