terça-feira, 6 de agosto de 2019

Rafiki | CRÍTICA


Em um tratamento convencionalmente romântico, a trama por trás de Rafiki parece até coisa shakespeariana, a julgar pelo típico conflito do amor crescente entre jovens de famílias rivais que acabam sofrendo as consequências de um ódio externo. Situado no Quênia, que ainda se guia pelo que se está "escrito na Bíblia", o segundo filme da diretora Wanuri Kahiu demonstra como a homoafetividade se contorce em busca da felicidade naquela nação africana.

Kena (Samantha Mugatsia) é uma garota que foge dos padrões típicos de sua vizinhança, se esquivando toda a vez que sua beata mãe fala sobre ela se ajeitar com um bom "doutor", concentrando-se numa futura carreira de enfermagem enquanto passa os dias conversando com os amigos e ajudando seu pai, prestes a ter um filho com sua nova esposa e a concorrer as eleições para vereador contra Okemi, um outro político local que não dispensa recursos panfletários para sua campanha, seja com passeatas ou com o mero chamariz de ter sua filha, Ziki (Sheila Munyiva), dançando com outras amigas. Em meio a essa rivalidade, surge uma amizade especial entre Kena e Ziki que logo se converge para uma paixão desafiadora, levando em conta toda a discriminação legalmente vigente no Quênia.

(© Olhar Distribuição/Divulgação)

De fato, Rafiki não é bem uma história de amor, a não ser para utilizá-la como um catalisador da exposição de todos os atos preconceituosos e violentos que irrompem ao redor das moças. Para um povo que abraça várias cores ousadas em suas vestimentas, casas e estabelecimentos, mas que proíbe o filme no país por sua "promoção do lesbianismo", a narrativa de Kahiu tristemente aponta para a carência de sororidade e como as mulheres erroneamente se colocam como as principais agressoras morais enquanto passivamente submissas. A diretora também não se esquece de focar no ícone do Cristo crucificado tanto na casa de Kena como na missa onde o padre escolhe trechos bíblicos controversos para justificar a homofobia.

Onde o estudo parece ser uma das poucas formas de progressão social enquanto é preciso oprimir seus reais sentimentos, Rafiki, que se inspira no conto "Jumbula Tree" da ugandense Monica Arac Nyeko, é em si um longa introspectivo com imagens bonitas que, por outro lado, não proporciona espetaculosas catarses como a ficção volta e meia nos deixa mal acostumados, mas se faz como uma lembrança de que sempre haverá alguém, um(a) rafiki ("amigo", em suaíli) para tocar nossos ombros entre adversidades.



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