quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Star Trek: Sem Fronteiras | CRÍTICA


Desde que voltou para os cinemas em 2009, Star Trek encontrou nas mãos do diretor e produtor J.J. Abrams um cuidado inefável ao atualizar a franquia para um novo público sem desrespeitar um legado de quarenta anos tão adorado por federações de fãs de longa data; uma repaginada que não só trouxe um ótimo elenco e um estilo revigorado de filmagem, como também o apelo ao mistério para mover suas narrativas, atiçando a curiosidade dos espectadores para o futuro da franquia. Envolvido com Star Wars: O Despertar da Força, pairava a dúvida de quem assumiria o posto de Abrams na direção e assim continuar o bom trabalho visto nos dois filmes e, não menos importante, evitar o estigma de que todo "terceiro filme é o pior". Contrariando todas as más impressões, Star Trek: Sem Fronteiras engaja-se no tradicional espírito de aventura pelo qual a série ficou conhecida e entrega um filme dinâmico e entrosado.

Se o conhecido anúncio da viagem interplanetária de cinco anos ao final de Star Trek: Além da Escuridão tinha tudo para prometer jornadas deslumbrantes "onde nenhum homem jamais esteve", a tripulação da USS Enterprise demonstra sinais de desgaste em seu terceiro ano de expedição. Das missões diplomáticas que não dão muito certo aos atritos nas relações de cada passageiro da nave, a Fronteira Final já não parece lá grandes coisas. O Capitão James T. Kirk (Chris Pine) pensa em deixar seu posto para Spock, mas o vulcano tem lá suas prioridades pessoais que comprometem até mesmo sua relação com Uhura (Zoë Saldana) e até o piloto Sulu (John Cho) anseia em ver sua família. Ambições particulares a parte, o novo fôlego tomado na base avançada Yorktown é interrompido quando o chamado da aventura vem à tona; uma missão de resgate no planeta Altamid onde a equipe da ponte da Enterprise terá de lidar com as adversidades mais uma vez em prol da união de seu pessoal.



Conhecido por colocar a franquia Velozes e Furiosos de volta às pistas de sucesso, a escalação de Justin Lin na direção se mostra uma escolha acertada ao dar continuidade ao estilo visto nas prequências tão marcado pelos movimentos de câmeras frenéticos (agora com menos flares) pareados com a adrenalina das ações tanto no espaço como em solo. Aliás, do segundo ato em diante, boa parte dos incidentes acontecem em locações reais, o que torna a experiência muito mais tátil e amistosa ao expor sua dinâmica separando Kirk com Chekov (Anton Yelchin), o Dr. "Bones" McCoy (Karl Urban) tendo que lidar com a personalidade obtusa de Spock, Uhura e Sulu com o resto da tripulação cativa sob o poder do vingativo Krall (Idris Elba) e o engenheiro Montgomery Scott (Simon Pegg) encontrando Jaylah (Sofia Boutella), que antes de sair do planeta, espera também pelo momento certo para um acerto de contas com o vilão e seus asseclas. 

Sendo uma nova adição ao cânone da série, pode-se dizer que Jaylah é uma boa e carismática síntese de todas as personagens femininas fortes encontradas no cinema nos últimos tempos e, além da declarada inspiração em Jennifer Lawrence, ficam evidentes as semelhanças importadas da Rey do último Star Wars que vão além do fato de ambas serem sucateiras. Ao se provar dona de várias habilidades que rendem cenas divertidas com o pessoal da Enterprise, vide suas engenhosas armadilhas, acaba que Jaylah é tão merecedora de nossa estima quanto aqueles(as) que já conhecemos há longo prazo.




Entrementes sua aventura espacial, Star Trek: Sem Fronteiras é daquele tipo de sequência que se propõe a desenvolver seus personagens, e assim o roteiro assinado por Simon Pegg e Doug Jung se desvencilha do tradicional arco Kirk-Spock sem comprometer o interesse do espectador ou, mais precisamente, dos trekkers. Tal experimento, por assim dizer, favorece a narrativa ao estabelecer incidentes distintos entre as duplas improváveis lidando com situações desfavoráveis onde, no final das contas, prevalecem o bom-humor, não só apresentando diálogos divertidos, mas se permitindo explorar as relações de personagens que antes tinham apenas momentos pontuais. Se é Scotty que fica a par das passagens mais cômicas, algo que o ator/roteirista tira de letra, surpreende o trabalho de Karl Urban ao mostrar que seu personagem não é só um médico insistente e solícito, mas dono de uma das cenas mais engraçadas envolvendo perguntas a Spock sobre um certo presente dado à Uhura. 

É uma pena, no entanto, que a comandante vivida por Saldana não tenha tanto tempo de tela (de novo) e aqui seja relegada a ser aquela que presencia Krall revelando seus planos malignos que, mesmo com a entonação forte de seu ator, não conseguem se sustentar por longo tempo. De qualquer forma, a sabotagem de um ataque do vilão com uma música "clássica" se revela uma das cenas mais empolgantes de todo o longa, seja por seus atributos sonoros ou pela edição ágil que entrega as ações dentro do ritmo.




Para os fãs da série, é possível que encontrem em Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek Beyond) uma história digna daquelas que cresceram assistindo em família ou com os amigos, e é neste espírito amigável que o filme se projeta mesmo ciente de suas baixas, com uma homenagem a Leonard Nimoy não menos emocionante. Tudo ali parece feito com respeito e com boa vontade de seu elenco; até mesmo os figurinos bonitos justificam a motivação dos cosplayers mundo afora. Para Gene Roddenberry, sua criação Star Trek (ou Jornada Nas Estrelas, para os saudosistas) seria a prova, embora fantástica, de que a humanidade pode dar certo num futuro onde o céu não é o limite. Ao cinema, fica a lembrança aos projetos de novas franquias que o amanhã pode ter uma diversão longa, próspera e otimista.


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