quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

No Coração do Mar | CRÍTICA


Quando Moby Dick, clássico da literatura norte-americana escrito por Herman Melville, foi adaptado para o cinema em 1956 pelo diretor John Huston, o homem vivia numa plena fase de progresso, de desafiar o impossível. Cheio de cobiça, no entanto, o ser humano parecia incapaz de admitir os próprios erros e se dar por vencido. Agora, na história de origem dirigida por Ron Howard, o aventureiro No Coração do Mar (In The Heart Of The Sea) procura trazer um conceito mais humanista enquanto condena a abominável caça às baleias. 


Muitas décadas antes do mundo ser iluminado pela energia elétrica, o óleo de baleia era a melhor fonte de iluminação do início do século XIX e, desde já, colocava os Estados Unidos como potência econômica. A ilha de Nantucket, em Massachussets, era o pólo de venda do óleo de baleia, assim como o ponto de partida e chegada de muitos navios. Na tradição de trazer cada vez mais barris de óleo, o que, consequentemente, significa uma matança ainda maior dos animais, o baleeiro Owen Chase (Chris Hemsworth, dedicado a ser mais do que o filho de Odin) se oferece para capitanear o navio Essex e a vindoura expedição que deve rumar até o Pacífico em busca de mais cachalotes e superar a meta de trazer mais do que 150 barris. Interesses praticamente políticos, no entanto, elegem o fidalgo e inexperiente George Pollard (Benjamin Walker), que é forçado pela família a acreditar que o sobrenome vale mais do que a experiência em alto-mar. Pelo menos, Chase tem ao lado fiéis tripulantes, como o amigo de longa data Matthew Joy (Cillian Murphy) e o novato Tom Nickerson (Tom Holland), que terá muita história para contar.



Sendo responsável por eliminar a chatice das corridas de Fórmula 1 no ótimo e (infelizmente) ofuscado Rush: No Limite da Emoção, Ron Howard traz novamente o espírito competitivo tão bem trabalhado no seu filme de 2013, aplicando tanto nos embates entre capitão e primeiro imediato assim como no principal motivo da história: homem versus animal. Não o bastante, o diretor sabe trabalhar bem com o roteiro de Charles Leavitt, jamais tornando a história enfadonha ou cansativa, algo que costuma acontecer em títulos que trazem longas cenas de náufragos - aqui, a passagem mais chocante da projeção. Dispondo de duas linhas narrativas, onde em uma encontramos o próprio Herman Melville intepretado por Ben Whishaw a procura de uma boa história para escrever, batendo na casa de um velho e recluso Tom Nickerson (Brendan Gleeson) e sua esposa (Michelle Fairley), que gosta dos livros de Melville, além da própria aventura de Chase, essas transições entre passado e presente são sempre dinâmicas e pontuais, até mesmo faz raccords por analogia ao colocar objetos semelhantes nessas duas linhas do tempo igualmente interessantes e bem encenadas por seus atores.

Reforçando a energia aventuresca do filme, a fotografia precisa ser imersiva (não por menos, vale a pena assistir em IMAX). Para isso, Howard e o diretor de fotografia Anthony Dod Mantle (também de Rush) criam planos modernos, cheios de subjetivas inusitadas e que funcionam ainda mais na finalização, quando recebem tratamentos de cor que, embora inusitados para um "filme de época", tornam a fotografia mais atraente. Além disso, a mise-en-scène dos planos colabora na conversão para o 3D estereoscópico, uma vez que há camadas de objetos antes dos atores e os pontos de vista ocasionalmente trazem ângulos bastante perspectivos, até mesmo debaixo do mar.



Embora pareça flertar com um toque novelesco, No Coração do Mar é um bom trabalho ilustrativo de uma época em que, para se alcançar o progresso, era necessário deixar tudo de lado e navegar por mares obscuros, tomando medidas drásticas, se for o caso, e dar vez à ganância. É triste, então, saber ainda que, já em 1820, espécies de baleias rumavam para um perigo de extinção no Oceano Atlântico, forçando o homem a explorar cada vez mais, na sua presunção de que o mundo e seus seres estão à sua disposição. É lamentável também que, quase dois séculos depois, o desenvolvido Japão dê a desculpa de querer caçar baleias por motivos de pesquisa, logo num período em que as nações (solenemente) discutem o desenvolvimento sustentável. 

Longe de encontrarmos uma utopia de coexistência, seria ideal caso, assim como um escritor "distorce" acontecimentos reais para prevalecer sua ficção, os mesmos personagens da ficção pudessem mudar o pensamento da humanidade e assim alcançar uma verdadeira redenção.



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