quarta-feira, 17 de novembro de 2021

NOITE PASSADA EM SOHO – um suspense virtuoso além da estética | CRÍTICA

Anya Taylor-Joy e Thomasin McKenzie em NOITE PASSADA EM SOHO

Edgar Wright é um cineasta de mão cheia e os seus filmes comprovam isso, sendo redescobertos e apreciados por cinéfilos que valorizam histórias bem contadas (vide o resgate de Scott Pilgrim Contra o Mundo dez anos depois de seu lançamento). Numa escalada de títulos sempre surpreendentes e divertidos, desta vez, Noite Passada em Soho demonstra o amadurecimento do virtuoso diretor de Baby Driver em seu flerte com temáticas que vão além do puro gesto estético.


Tal como em Ritmo de Fuga, a música é um dos fatores essenciais para a imersão de Noite Passada em Soho. O roteiro escrito por Wright com Krysty Wilson-Cairns (1917) nos apresenta Eloise (Thomasin McKenzie), uma garota prestes a ingressar para a faculdade de moda em Londres, mas parece viver deslocada no tempo morando com a avó no interior. Mesmo com a pluralidade dos dias atuais, são as canções badaladas dos anos 1960 que são uma constante na vitrola e seus croquis também são pra lá de retrospectivos. Na despedida, a gentil avó reitera que a capital inglesa é um lugar perigoso, mas, para quem apenas pensa em almejar o sucesso, Ellie não tarda em vislumbrar o que as noites londrinas escondem e vão fazê-la se aproximar com aqueles anos que tanto estima.


(© Universal Pictures/Divulgação)


De certo modo, é difícil não associar a narrativa com Cruella ainda mais quando a obsessão pela moda (ou, mais precisamente, com a confecção de um vestido) toma boa parte do tempo, no entanto, o filme inclina-se mais para Suspiria do que para o sucesso protagonizado por Emma Stone. Bem menos diabólico do que o giallo realizado por Dario Argento, mas tão gradativamente perturbador quanto, é curioso como Last Night In Soho (no original) desconstrói uma era tão marcada pelo glamour para revelar uma vil sociedade (masculina) que se aproveita dos sonhos de jovens tão dispostas ao estrelato. O que pareciam cenas oníricas de uma imaginação típica de uma estudante de artes (é não menos que estonteante a primeira sequência de sonho), logo se tornam um elo espiritual com Sandie (Anya Taylor-Joy) e sua doentia relação com Jack (Matt Smith) em cada descida pelos antigos pubs e salões da região.


(© Universal Pictures/Divulgação)


Suntuosa, a direção de fotografia de Chung-hoon Chung (A Criada) replica a atmosfera embriagante de letreiros de luzes neon coloridos em que cada mudança de cor se faz prática para a narrativa, mas é também válido apontar como não é gratuito o fato de o hall de entrada da casa da Sra. Collins estar mergulhado em trevas. A virtuosa operação de câmera também trabalha a favor do mistério da narrativa, bem como a marcação de Wright no posicionamento de personagens e a montagem afiada de Paul Machliss entre jogos de espelhos. Longe de dispersar a atenção, o filme atiça cada vez mais o interesse por sua realização mesmo com exageros que o aproximam do esquisito Maligno, porém há muito mais a fascinar e amedrontar tamanha obra criativa.


Jogo de espelhos e luzes não cansam de impressionar entre as transições de Ellie para Sandie.
(© Universal Pictures/Divulgação)


Pra ficar ainda melhor: Terence Stamp e a saudosa Diana Rigg (Game Of Thrones) em participações muito que especiais – e olha que Anya e Thomasin não ficam distantes em relação às performances dos veteranos. É verdade que o roteiro pode ser previsível para peritos no gênero e que o saudosismo possa tornar o programa cult demais, mas é inegável que Edgar Wright teceu um suspense elegante e maliciosamente divertido com Noite Passada em Soho.



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