quarta-feira, 24 de novembro de 2021

CASA GUCCI – um corte antiquado | CRÍTICA

 

Mesmo com todas as suas inegáveis contribuições para o Cinema, Ridley Scott é um cineasta que gosta de ficar a par das tendências (à parte de sua ojeriza aos filmes de super-heróis) colocando-se praticamente em ininterrupta atividade. Passado o recente O Último Duelo, o veterano agora se aproxima da saga informal de cinebiografias de estilistas e grifes da alta costura que se tornaram corriqueiras nos últimos quinze anos e, quase sempre, mostrando as jornadas de uma elite que, de tão gananciosa e arrogante, acabava cavando a própria cova. De certa forma, Casa Gucci não poderia ser diferente de tal média.


Parece até que a ideia para adaptar o livro escrito por Sara Gay Forden veio a partir do momento em que Ridley Scott viu Ryan Murphy lançar a sua temporada de American Crime Story: The Assassination Of Gianni Versace, ainda mais considerando que as tragédias envolvendo os donos das marcas mais prestigiadas se deram em anos tão próximos. Talvez seja mera coincidência, até porque o roteiro de Becky Johnston (Sete Anos no Tibet) e Roberto Bentivegna deixa de lado a parte investigativa para se concentrar nos conflitos da família Gucci, inicialmente incendiados (ao que leva a crer) por Patrizia Reggiani e seu desarmonioso casamento com Maurizio Gucci, um dos poucos herdeiros da grife.

(© Universal Pictures/Divulgação)


Na representação desses papéis reais, entram Lady Gaga e Adam Driver, muito que bem acompanhados de Jeremy Irons e Al Pacino (totalmente carismático), que reforçam a credibilidade com personalidades tão distintas como os patriarcas da marca. Enquanto já temos plena ciência do ótimo alcance dramático de Driver, que ainda surpreende por ser apresentado como um rapaz acanhado e de sorrisos tímidos, as expectativas recaem sobre Gaga em seu primeiro longa depois de Nasce Uma Estrela e de todo o burburinho em volta de seu método de atuação. 

(© Universal Pictures/Divulgação)

De fato, a Patrizia de Gaga é a alma da trama (logo porque seria a catalisadora de quase todas as intrigas) e a artista concede uma boa e divertida interpretação entre tantas trocas de perucas e vestimentas que reforçam sua silhueta e decote. A crescente obsessão da personagem também não é comprometida, todavia os ocasionais momentos de overacting com gesticulações e sotaque pesados cansem por sua repetição e pela possibilidade de que nunca fora tão exagerado assim. 


E, por falar em divertimento, é impossível não mencionar o Paolo Gucci de Jared Leto. Na caracterização do herdeiro de gosto terrivelmente duvidoso, o figurino e a maquiagem de Leto acaba se tornando uma mescla de personagens de Harry Potter com algum anão de O Hobbit, mas é verdade que o ator empreende uma leveza necessária ao filme logo quando Scott conduz a trama de forma tão soturna, embora fadado a momentos constrangedores. Merecem destaque também Jack Huston e Salma Hayek, notadamente se divertindo como uma taróloga de televisão.


(© Universal Pictures/Divulgação)


House Of Gucci, no fim das contas, é um filme antiquado. Para os seus 157 minutos de duração, não faltam cenas redundantes guiadas em modo automático sem uma marcação estratégica para o elenco, ainda que o diretor de fotografia Dariusz Wolski seja astuto em retratar e iluminar a morada de Rodolfo Gucci (Irons) em uma monocromia remetendo ao passado cinematográfico do personagem da mesma forma que a fachada da casa remete a uma lápide (quando há sol, a iluminação não é dianteira) em contraste com toda a personalidade radiante de Aldo Gucci (Pacino), que não deixa de glorificar as conquistas da família. É de Al Pacino também a ótima fala acerca das falsificações de produtos da marca e sua constatação sobre tais réplicas sintetiza o que ainda define a sociedade do consumo. Seja Patrizia ou qualquer pessoa disposta a pagar 30 dólares numa bolsa qualquer com o logotipo da Gucci torto ou mal estampado, sempre foi – e ainda é – sobre almejar pertencer a tal mundo de conforto e luxo.



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