quinta-feira, 18 de novembro de 2021

A CRÔNICA FRANCESA – cinefilia de encher os olhos | CRÍTICA


É impossível não gostar da filmografia de Wes Anderson. Entre títulos populares e outros intelectualíssimos, o diretor rebusca e exprime o que há de melhor no Cinema no intuito de entregar experiências que brilham nos olhos e sorrisos de qualquer bom cinéfilo que aprecia um humor afiado e um peso cada vez maior na fotografia e direção de arte. Seria surpresa dizer que A Crônica Francesa cumpre todos esses requisitos?

Roteirizado por Wes Anderson a partir de um argumento trabalhado em conjunto com Jason Schwartzman, Hugo Guinness e Roman Coppola, o 10° longa do diretor é uma ode ao cinema e toda a arte francesa lá das décadas de 1950 a 1970 – obviamente, o cinema de Jacques Tati recebe homenagens não menos que fascinantes como, por exemplo, um personagem que sobe vários andares de um prédio de formato irregular tal como a casa de Meu Tio num mesmo plano. Ainda que não onipresente, mas essencial para a história, está o fundador da revista “The French Dispatch”, Arthur Howitzer, Jr. (Bill Murray), que, no intuito de levar cultura para o interiorzão do Kansas, nos EUA, pede para seus exímios correspondentes narrarem casos pra lá de auspiciosos para preencher as seções de seu periódico.

(© Searchlight Pictures/Divulgação)


E esses correspondentes não poderiam ter melhor elenco: Owen Wilson, Tilda Swinton, Frances McDormand e Jeffrey Wright. Enquanto o primeiro traz uma história caricata muito que aos moldes das narrativas de Tati, todavia descrevendo o que há de pior no interior da França, são as crônicas contadas pelo restante que tomam a maior parte da tela. Um verdadeiro patrimônio da humanidade, Swinton narra o caso de um detento (Benicio del Toro) que tem o hábito de pintar a guarda do asilo (Léa Seydoux) em traços abstratos, para o fascínio de um curador de arte (Adrien Brody). Já a vencedora do Oscar por Nomadland traz um caso um tanto quanto íntimo demais ao contar a revolução estudantil capitaneada por um rapaz de nome Zeffirelli (Timothée Chalamet) que até flerta com o anarquismo dos primeiros filmes de Truffaut e de Godard. Ainda que um tanto confusa, a crônica policial de Roebuck Wright (Jeffrey Wright) brinca com o noir francês envolvendo um comissário (Mathieu Amalric) que aprecia uma gastronomia requintada.

(© Searchlight Pictures/Divulgação)


Pode-se dizer que A Crônica Francesa é um filme distrativo, ainda que isso deve ser entendido num bom sentido. Entre narrações e demais informações textuais em tela, chega a ser difícil escolher o que focar toda a atenção, ainda mais quando Anderson é tão caprichoso em sua mise-en-scène que, por vezes, me peguei contemplando os cenários requintados e toda a arte envolvida, sem se esquecer do apreço do cineasta pela ação em profundidade de campo. Toda a erudição do humor e nomes tão extravagantes colaboram nessa sensação de que o filme se torna mais arrastado do que deveria, mas com tamanho deleite visual, revisitar o título em outras ocasiões é uma oferta irrecusável.

(© Searchlight Pictures/Divulgação)



Saudosista, Anderson retoma a parceria com o diretor de fotografia Robert Yeoman em mais composições tão bonitas quanto sagazes. Lá estão os cenários e figurinos adornados com os tons pastéis cuja nostalgia é reforçada pela coloração amarelada da fotografia, mas o grande atrativo se dá nas trocas de aspectos de telas tal como acontecia com O Grande Hotel Budapeste, todavia aqui há uma aplicação mais estética. Rodado praticamente no antigo padrão acadêmico 1.37:1 oscilando entre apresentações coloridas ou monocromáticas, as trocas para o widescreen se dão quanto é preciso enquadrar todos os afrescos numa parede, por exemplo, ou quando as ações demandam de tal horizontalidade da razão de aspecto.

(© Searchlight Pictures/Divulgação)



Reservando passagens em animação 2D a la Ocelot e Hergé, contando também com a trilha do oscarizado Alexandre Desplat e seus arranjos que reforçam a nostalgia francesa conforme o padrão do cineasta, o filme reserva participações especiais de Elisabeth Moss, Christoph Waltz, Willem Dafoe, Saoirse Ronan entre tantos outros nomes breves, mas não menos ilustres. A Crônica Francesa (The French Dispatch, no original) pode não ser um acerto pleno do cineasta, ainda mais quando sua fórmula ja não é grande novidade, mas não deixa de ser uma obra obrigatória por sua irreverência e primor cinematográficos.




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