quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Homem-Aranha no Aranhaverso | CRÍTICA


Definitivamente o personagem mais lucrativo da Marvel, ao longo de suas cinco décadas de existência, o Homem-Aranha sempre passou por bons e maus bocados nos quadrinhos desenhados pelos melhores artistas da editora e, a partir daí, seus famosos arcos começaram a migrar para inúmeras séries animadas (e até mesmo uma em live action para o publico japonês) que marcaram gerações de fãs ao longo das décadas. No entanto, nada supera o valor afetivo que o grande público construiu ao redor dos filmes rodados por Sam Raimi na década passada cujo super-herói veio a receber outras duas repaginadas pelo estúdio, o que fez seus aficionados iniciarem um debate insuportável pelas redes a fim de definir qual é o melhor intérprete de Peter Parker nas telonas, logo quando uma criativa expansão do Aracnídeo surgia quase que ao mesmo tempo nas páginas do seu meio de origem.

Com roteiro escrito por Phil Lord (Uma Aventura LEGO) e Rodney Rothman (Anjos da Lei 2), que divide a direção com Bob PersichettiPeter Ramsey (A Origem dos Guardiões), Homem-Aranha no Aranhaverso se debruça sobre as licenças poéticas que só o cinema de animação poderia prover aos realizadores para contar muito mais do que outra jornada de Peter Parker na grande Nova York, mas a do adolescente Miles Morales e como esse grafiteiro morador do Brooklyn ganhou "grandes poderes" para se ter "grandes responsabilidades" quando Parker é tirado da jogada pelo Rei do Crime/Wilson Fisk após um acidente com um acelerador de partículas. Para a sorte de Miles, com um pai policial cujos deveres cívicos o impedem de ser um mentor próximo (que fica a cargo da figura do tio, camarada e misterioso, porém), logo o jovem descobre que não está sozinho nesta teia que o leva a momentos de muita adrenalina e até de um existencialismo bastante típico nas demais produções que levam o nome do super-herói.


Ao passo em que a narrativa trilha as óbvias etapas da Jornada do Herói com uma previsível cota de obstáculos na forma de vilões conhecidos (com uma roupagem bastante diferente da qual estamos acostumados) e outros inéditos com um ou outro bom ponto de virada, Aranhaverso se destaca desde seu primeiro minuto pelo uso da linguagem de quadrinhos inserindo caixas de transição em cantos da tela e balões de pensamento sobre as cabeças das personagens, além de ocasionalmente dividir o quadro em cenas de ação constante que também abusa das onomatopeias que não só se fazem sonoras, como irrompem graficamente. Destaca-se ainda a vibrante paleta de cores que aposta em tons mais elétricos sem deixar de aplicar aquelas clássicas que são de mote do super-herói, o que torna a experiência muito mais jovial e bonita de se ver.

Inflado de referências dos longas-metragens anteriores e de demais conteúdos midiáticos, no entanto, existe a impressão de que todo esse conto repleto de firulas visuais tem mais um viés estratégico de como a Sony Pictures pode aproveitar a franquia sem ter a mão pesada da Marvel Studios por perto, ainda mais com o sucesso estrondoso do defasado Venom. Apesar de suas interessantíssimas peculiaridades gráficas, Porco-Aranha, Peni Parker e Homem-Aranha Noir são supérfluos à trama a não ser para acrescentar uma ou outra piadinha brevemente divertida que logo é deixada de lado pelo clímax bastante explosivo.

É uma pena também que a origem da Gwen-Aranha não tenha o mesmo desenvolvimento que o do protagonista logo quando a personagem se porta tão fascinante quanto o auspicioso garoto, mas a verdade é que Miles Morales tem um potencial e tanto pela frente (vale lembrar o quão simbólico é a cena em que o personagem assume a identidade do herói e imerge à skyline novaiorquina). Resta torcer, portanto, para que Morales não fique restrito a esta colorida dimensão de Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spider-verse, no original) e que o filme, recém vencedor do Globo de Ouro de Melhor Animação, não seja lembrado apenas por suas tantas homenagens ao cânone do Aracnídeo.




P.S.: há cenas pós-creditos e uma deliciosa participação do espetacular Stan Lee.

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