quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Assunto de Família | CRÍTICA


Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes e indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, pode-se dizer que Assunto de Família é um filme complexo mesmo se tratando de um retrato cotidiano de uma marginal família japonesa. Ponderando diversas vezes o dilema de se fazer o que é moralmente certo ou errado em prol da sobrevivência e no amparo ao próximo, o sensível cineasta Hirokazu Kore-eda (Depois da Vida) evoca a modéstia de uma vida regrada a sacrifícios que tendem a compensar outros.


Escrito por Kore-eda, Manbiki kazoku (título original) começa enredando o espectador em um ato de cumplicidade que será posto à prova ao longo do caminho: em um mercado, pai e filho surrupiam alguns copos de macarrão instantâneo seguindo quase que uma fórmula há muito ensaiada por ambos. Na volta tardia e fria para casa, a dupla percebe uma menina de nome "Yuri" trancada para fora do apartamento onde vive com a mãe e decidem levá-la para ganhar uma refeição no abarrotado e simplório lar onde também residem uma avó, uma esposa e uma irmã com suas devidas particularidades que, todos juntos, integram uma família nada convencional, porém feliz – até que a assistência social dê como falta aquela menininha que desconhecia o significado do afeto e tantas outras coisas como vem a descobrir junto com seu novo irmão, Shota.


Filmando com simplicidade este roteiro meticuloso e resgatando, por exemplo, a decupagem de Yasujiro Ozu de câmeras baixas e enquadramentos amplos que valorizam a profundidade de campo, Kore-eda faz, ainda que mais lento do que para nossos padrões ocidentais, um estudo fascinante dessas pessoas que pouco a pouco, revelam ter mais do que um "coração grande" e nos revelam quem realmente são nas entrelinhas de suas conversas ao longo das estações que passam. Transmitindo as sensações diversas do inverno sofrido ao verão úmido, passamos a nos intrigar com o destino daquelas pessoas e se haverá, de fato, alguma possibilidade de final feliz para todas elas.

Incisivo e tocante em seu desfecho, Assunto de Família já é, certamente, um filme obrigatório para aqueles que gostam de conhecer o lado "obscuro" do Japão (além da estirpe de sociedade civilizada de primeiro mundo) e que prezam por histórias com personagens bem desenvolvidas e que se mantêm em pensamento por horas após a sessão, servindo também como um convite de respeito às demais obras do cineasta.



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