quinta-feira, 5 de abril de 2018

Um Lugar Silencioso | CRÍTICA


John Krasinski parecia um nome incomum para dirigir um filme de gênero levando em consideração sua vasta experiência como ator de comédia em produções na TV e no cinema, mas acabou que, com o argumento da dupla Bryan Woods e Scott Beck em mãos, Um Lugar Silencioso foi seu ponto de ignição para se lançar na realização de um longa de terror pós-apocalíptico, afora suas outras tentativas como diretor de comédias de repercussão tímida. Seguindo corretamente as regras do suspense, Krasinski promove aqui um filme eficiente em sua proposta, além de expressar que proteger e amar a família é um exercício que dispensa verbalizações.

A julgar por seus elementos narrativos, Um Lugar Silencioso se aproxima de produções similares de terror minimalista (restringindo personagens e/ou cenários) que vem se destacando nos últimos tempos, como Corrente do Mal, A Bruxa e Ao Cair da Noite, embora se faça bem menos especulativo. Em um futuro próximo, o mundo se encontra em um estado de calamidade onde criaturas alienígenas de audição ultrassensível dizimam qualquer ser vivo que propague um mínimo de ruído e a família Abbott, que aprendeu isso da pior maneira, tem sobrevivido a base do silêncio há mais de um ano. Das trilhas feitas com areia a aquisição de hábitos domésticos que emitem sons pouco perceptíveis, a família já era adepta da língua de sinais em virtude da deficiência auditiva da filha mais velha, Regan (Millicent Simmonds, vista recentemente em Sem Fôlego), além de outros hábitos que o inventivo e protetor pai, Lee (Krasinski), impõe na rotina diária a fim também de superar o medo que o filho do meio, Marcus (Noah Jupe, o colega de Auggie em Extraordinário), tem de encarar diante das necessidades de sair de casa e se preparar para o perigo, ainda mais quando Evelyn (Emily Blunt) encontra-se grávida e vai requerer toda a atenção necessária para o iminente trabalho de parto e as consequências que isso pode acarretar com a ameaça à espreita.

Paramount Pictures / Divulgação)

Lidando com um formidável trabalho de edição de som minucioso em suas nuances cuja mixagem reflete também as perspectivas das personagens (com destaque para Regan) aliado ao bom trabalho de câmera em seu direcionamento sonoro (todavia pouco se empreenda na criação do extracampo) previsto no roteiro, a parceria de Krasinki com a boa diretora de fotografia Charlotte Bruus Christensen (Um Limite Entre Nós, A Garota no Trem) demonstra imagens que acentuam o tato nos momentos acalentadores, preenchendo os cômodos da casa com luzes ocasionalmente quentes, embora as locações externas também são registradas predominantemente em dias ensolarados – aqui, é a incidência do som que prenuncia o horror. Rodado em película, a textura granular impressa contribui tanto para a rusticidade das ambientações como para o estado de tensão intensificado no seu clímax no misto das contrastantes lâmpadas avermelhadas com o azul do céu noturno.

Enquanto o elenco é impecável em seus papéis, muito pelo fato de Emily Blunt e John Krasinski serem casados e pais, a transposição do roteiro para as telas traz ressalvas que, entretanto, não comprometem a experiência. Do viés paternalista que vulnerabiliza as figuras femininas aos furos contidos em elementos insistentes na trama (por exemplo, os closes dedicados ao prego no meio da escada do porão) que predispõem as personagens ao erro sempre que possível, o longa cai na armadilha de se ater a alguns jump scares que, sim, também são acompanhados dos típicos efeitos musicais que colaboram na hora do susto.

Paramount Pictures / Divulgação)

Quisera ser um manifesto autoral a favor do silêncio dentro e fora das telas, o filme produzido por Michael Bay se associa a uma trilha genérica do irregular Marco Beltrami que não parece incomodado em repetir o tom desolador de suas composições ouvidas em Logan, ditando aí as emoções que o público deve sumariamente sentir. Tivesse se inspirado em Os Pássaros, que fez de Alfred Hitchcock um pioneiro no uso narrativo do som ao se abster de sinfonias e, a partir daí, intensificando o suspense em cena apenas com efeitos sonoros e uma montagem sagaz tendo como consultor seu compositor Bernard Herrmann, seria provável que Krasinski alçasse Um Lugar Silencioso (A Quiet Place) no pódio dos thrillers mais irreverentes dos últimos tempos, tamanho esforço no cumprimento da praticamente imutável fórmula do gênero que, por sua vez, pode ter no cineasta um bom aliado no futuro. Porque é no exato momento em que o espectador (exigente ou não) se sente incomodado ou prendendo a respiração até sua poderosa cena final, é inegável que o filme foi certeiro em cumprir sua proposta.




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