quinta-feira, 12 de abril de 2018

Baseado em Fatos Reais | CRÍTICA


Já são vários os filmes que retratam os infames bloqueios criativos sofridos por escritores ou artistas com seus sintomas pra lá de delirantes e consequências até severas, mas quando se trata de Roman Polanski na direção, a tendência é que a narrativa seja bem mais intensa do que de costume. No alto de seus 84 anos, o diretor franco-polonês soma um histórico de polêmicas envolvendo sua vida particular da mesma forma que é dono de uma leva de longas-metragens cujo impacto e reverência não diminuíram com o passar do tempo; pelo contrário, demonstram um rico simbolismo que anda em falta no cinemão atual.


Baseado em Fatos Reais, seu mais novo filme francês em parceria com a atriz e esposa Emmanuelle Seigner, reaproxima Polanski da condução de thrillers psicológicos que renderam no passado os interessantíssimos O Bebê de Rosemary e O Inquilino, embora aqui a adaptação do romance de Delphine de Vigan lançado em 2015 se faça bem menos provocante. Com roteiro assinado por Polanski e Olivier Assayas (do bom Personal Shopper e Acima das Nuvens), a narrativa apresenta a escritora Delphine Dayrieux (Seigner) em meio a uma lotada sessão de autógrafos de seu lançamento mais recente, uma biografia sobre sua falecida mãe. Entre pedidos de dedicatórias dos leitores expressando sua empatia pela obra, Delphine demonstra um completo esgotamento físico e mental que nem mesmo um descanso sugerido pelo ausente namorado (Vincent Perez) é capaz de sanar, senão pelas conversas que passa a ter com a admiradora Elle (Eva Green), uma sedutora mulher anos mais nova que diz ser uma escritora fantasma de políticos e até mesmo de artistas. Dessa relação amistosa onde uma parece entender perfeitamente a outra, Delphine vai deixando Elle assumir as rédeas de sua rotina uma vez que esta não vê objeções nisso, ainda que demonstre um caráter bastante compulsivo a partir do momento em que a autora vai ficando mais debilitada e ausente de seus compromissos.

Paris Filmes / Divulgação)

Ciente de que boa parte dos incidentes da trama escrita por de Vigan não são lá tão inéditos, reprisando o que há de comum em thrillers parecidos (a perna engessada, a possibilidade de envenenamento, a desolação da casa no interior e os medos que envolvem um porão), Polanski aproveita a oportunidade e faz de Baseado em Fatos Reais um filme ludibrioso – e não há nada de errado com isso. Todavia haja momentos piegas e batidos que quase comprometem a narrativa por inteiro, o diretor prova-se competente ao gerar um suspense que levanta questionamentos a todo o instante, ainda mais quando Elle surge em posse de itens que são de grande estima para Delphine, seja uma caneca preferida dada pelos filhos ou até peças do vestuário. Estaria Elle ali apenas para usurpar a criatividade de Delphine ou é esta que, supostamente acatando a opressão da jovem escritora e fazendo-a revelar seu passado sombrio, é a verdadeira dona do jogo? Quem seria o(a) remetente das cartas anônimas e grosseiras, além de todas as polêmicas em seu falso perfil no Facebook? Seria Elle um reflexo de uma Delphine jovem passional e intuitiva? Afinal, tudo isso não é só um delírio de uma autora em crise?

Assim, enquanto não é exigido muito de uma Emmanuelle Seigner notavelmente cansada, é Eva Green que se destaca na produção com trejeitos que fazem de sua sensualidade natural se perderem num semblante austero, mas é na cena em que precisa se passar por Delphine que a atriz demonstra sua versatilidade ao utilizar, além da caracterização de roupas e cabelo, uma tonalidade de voz mais serena tal como a de Seigner. Discreta, a trilha sonora de Alexandre Desplat (A Forma da Água) vem a reforçar a dubiedade da trama quando justamente carece de brilho e é interessante notar como o cineasta quebra regras fotográficas para melhor ilustrar a subjetividade de sua protagonista.

Paris Filmes / Divulgação)

D'Après Une Histoire Vraie (no seu título original), enfim, pode até se posicionar distante do ilustre panteão dos filmes que Roman Polanski realizou em seus mais de 60 anos de carreira, mas, de qualquer forma, proporciona a mescla de divertimento e tensão que todo thriller deve cumprir via de regra por fazer seu espectador estremecer, se identificar ou até se irritar com as atitudes das personagens. É também uma obra que especula o quanto a ficção se inspira na verdade e se isso, os tais "fatos reais", tem maior valia do que um esforço criativo; uma indireta que Polanski faz questão de sublinhar nas entrelinhas ainda mais quando a mídia leva mais a sério os casos notórios de sua vida ao invés de promover a discussão de sua excepcional filmografia.



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