segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Extraordinário | CRÍTICA


Adaptado do livro homônimo escrito por Raquel J. Palacio, Extraordinário surge como um filme que não precisa se esforçar muito para conquistar o público. Com tamanha história carismática, impulsionada com sua estreia nos cinemas em meio às solenidades natalinas, é em sua apresentação do garoto Auggie Pullman (interpretado pelo prodígio Jacob Tremblay, de O Quarto de Jack) e das pessoas ao seu redor que o longa se destaca por ser um bem-vindo estímulo a gentileza após um acúmulo anual de chateações, ainda que via uma abordagem leve e familiarmente segura.

À parte das cicatrizes das vinte e sete cirurgias feitas para reparar a sua anomalia cranofacial de nascença, qualquer um diria que Auggie é um menino como qualquer outro de dez anos: passa um bom tempo jogando vídeo-games, adora Star Wars (a ponto de ter uma trança de aprendiz Padawan e lightsabers de plástico) e tem uma facilidade acima da média quando se trata de Ciências. Escolarizado a vida inteira dentro de casa por sua mãe, Isabel (Julia Roberts), Auggie receia pelo início das aulas e o convívio com as outras crianças da sua idade e, talvez o pior disso tudo, o que cada uma delas vai pensar e reagir quando vê-lo tirar seu adorado capacete de astronauta. Do porto seguro diário que se torna a sua casa e familiares, incluindo o pai, Nate (Owen Wilson), a irmã, Via (Izabela Vidovic), a cachorrinha Daisy e os bons colegas, principalmente Jake (Noah Jupe), além de se imaginar protegido por ninguém menos que Chewbacca, é no contato com os infelizes bullies ou com seus professores solícitos que tanto Auggie como nós, espectadores, passamos a ter uma longa aula sobre a empatia que nem sempre é mútua, vide os capítulos que trazem os pontos de vista de outros personagens da trama.

(Lionsgate/Divulgação)

Stephen Chbosky (do ótimo As Vantagens de Ser Invisível) co-roteiriza e dirige Extraordinário batendo na tecla da importância de se praticar a reciprocidade em tempos onde a sociedade urbana parece tão disfuncional justamente por sobreviver de um egoísmo à base das aparências (sejam elas físicas ou por omissões verbais e até virtuais) ou pelo desequilíbrio em se dedicar demais por algo ou alguém, mas se esquecendo do próprio bem-estar. Assim, os pontos de vista de Isabel, Jake, Via e de sua amiga Miranda (Danielle Rose Russell) projetam prévias do quanto Auggie influenciou em suas rotinas ou, mais precisamente, o que deixaram ou gostariam de ter ou porque aquele menino lhes é tão especial. Nesta galáxia de Nova York não muito distante para Auggie, ele ainda aprende sobre perda e reconciliação, por mais que pareça tudo tão difícil de aceitar.

É uma pena, no entanto, que o apelo às narrações nem sempre sejam funcionais para o longa. Com um descuidado núcleo adolescente (Chbosky tirou a sorte grande quando dirigiu Emma Watson, Ezra Miller e Logan Lerman no filme lançado em 2012), as subtramas soam inicialmente alheias ao conto principal uma vez que a dupla de amigas parece não se comportar de acordo com o texto narrado e que deveria ser tratado com um pouco mais de seriedade nos atos sequentes, embora a história se reitere em Auggie. Não obstante, o roteiro investe na sequência do acampamento no intuito de reiterar um moralismo automático já trabalhado nos incidentes anteriores na escola, servindo apenas como elemento redentivo para personagens coadjuvantes.

(Lionsgate/Divulgação)

Fotografado por Don Burgess (Aquaman, Aliados, Forrest Gump) praticamente em dias nublados ressaltando as cores do meio escolar e urbano ao redor de Auggie, sem deixar de mencionar a tocante breve participação de Sonia Braga, Extraordinário (Wonder, no original) figura-se como um filme honesto cuja mensagem positiva, ainda assim, coloca a essência de sua narrativa acima das ressalvas mencionadas com material suficiente para boas risadas e lágrimas verdadeiras. É, portanto, uma obra de coração grande e disposta não só a agradar a todos os públicos, mas a infundi-lo a fazer a diferença.




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