domingo, 3 de fevereiro de 2019

Vice | CRÍTICA


Indicado a 9 Oscars, Vice é, para início de conversa, um "filme-cabeça" que faz jus à essência do bom cinema de montagem e à polissemia de seu título em inglês. Muito mais do que se debruçar com afinco sobre a bizarra e controversa trajetória política de Dick Cheney, vice-presidente durante a gestão de George W. Bush, o diretor e roteirista Adam McKay repete a sua minuciosa revisão dos valores americanos tal como fizera em A Grande Aposta para contar o quão grande é a mesquinhez (na falta de palavra melhor…) dos partidários republicanos de sua nação e o que suas decisões acarretam no restante do mundo.


Cartelas com ditados irônicos, inserções de imagens análogas ao discurso do momento, falsos finais felizes. Frenético e explicado ocasionalmente na voz de Jesse Plemons, é assim que Vice trata de acompanhar Cheney em dois momentos específicos de sua jornada: o primeiro, lá na década de 1960, quando o corpulento político nada mais era do que um eletricista preguiçoso até sua esposa, Lynne (Amy Adams), lhe obrigar a tomar um rumo na vida – um que faria o sujeito aqui interpretado por Christian Bale dar uma inesperada progressão política desde o Congresso aos cômodos da Casa Branca seja nas Eras Nixon e Reagan ou naquela em que lhe concedeu o cargo que faz título dessa obra – e que também pôs a tona seu vício pelo poder em plena "Guerra ao Terror".

(© Imagem Filmes/Divulgação)
Replicando em voz alguns pensamentos reacionários que podem comprometer o entendimento de alguns quanto ao teor da obra, é válido atestar que Vice tanto debocha quanto desdenha justamente do comportamento das figuras republicanas que surgem ao longo da projeção – alfinetadas ao jeito Trump de governar não são meras coincidências aqui. As convincentes atuações do elenco principal  não ficam dependentes de suas maquiagens de caracterização e, de fato, o filme comprova como Bale e Adams formam uma ótima dupla em qualquer temática, além de entregar uma performance honesta de Rockwell sem seus conhecidos excessos.

(© Imagem Filmes/Divulgação)

Por todos os seus méritos técnicos e artísticos e pela sua primorosa pesquisa tão entusiasmada e, ao mesmo tempo, tão desgostosa acerca seu personagem-título, só é uma pena que os experimentalismos de McKay sejam tantos que podem tornar a projeção do filme cansativa para aqueles que mais necessitam ver – e compreender! – seu conteúdo. Num todo, Vice faz House Of Cards parecer um conto de fadas tendo em mente o impacto que Dick Cheney legou ao seu país.



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