quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Cafarnaum | CRÍTICA


Vencedor do Prêmio do Júri, do Júri Ecumênico e do Prêmio de Cidadania no Festival de Cannes, daí recebendo indicações de Melhor Filme Estrangeiro no Globo de Ouro e no Oscar, Cafarnaum remonta à antiga tradição de retratar a infância marginal no cinema e que, a título de curiosidade, nos rendeu os célebres Zero de Conduta e Ladrões de Bicicleta. Ao lamentar em simples e precisos gestos que a inocência pueril se esvai logo nos primeiros anos de vida no caos da periferia da capital libanesa, a diretora Nadine Labaki registra o poder da resiliência num meio onde carece de justiça e esperança.


Zain é um menino de maus hábitos: não frequenta a escola, encrenca com um ou outro na rua e ainda fuma com outros garotos de sua suposta idade. Se, no ano anterior, já havíamos visitado o Líbano com O Insulto e seu "filme de tribunal", Cafarnaum começa quase da mesma forma. Detido por um crime que veremos suas inúmeras razões justificarem tal ato, Zain quer processar seus pais pelo fato de existir em um mundo hostil e por terem lhe privado do essencial para toda a criança crescer bem. Dono de um semblante amargurado, melancólico, Zain nos conduz por diversos redutos da cidade em uma jornada de várias dificuldades, mas perseverante ao encontrar tipos diversos: o "Homem-Barata", a imigrante ilegal com dois subempregos e mãe solteira, além da menina no bazar que lhe conta da possibilidade de uma vida melhor no estrangeiro.

(Reprodução/IMDb)

Adotando um estilo semidocumental ao acompanhar o garoto com uma decupagem equilibrada, ainda que utilize algumas câmeras a pino para expor a gravidade das favelas libanesas, Labaki constrói uma narrativa para mostrar o quão edificante é seu personagem por mais que este se configure como um anti-herói. Todavia com umas passagens redundantes que só expressam o óbvio e que só servem para estender a metragem, Cafarnaum é incisivo na denúncia dos males que assolam o seu país (o casamento infantil, a falta de planejamento familiar e daí o analfabetismo vigente, a lotação nas celas), mas que ainda flagra momentos de humanidade em meio às necessidades – e são nesses momentos que Zain tem vislumbres do que a felicidade é feita, porém conformista ao saber que ela dificilmente lhe será plena.

(IMDb/Reprodução)

No misto de emoções fortes presentes no terço final do filme, Cafarnaum (Capharnaüm, no original) traz em seu últimos minutos aquele que vem a ser seu plano mais bonito tamanha significação narrativa e expressividade de seu ator. Em meio a lágrimas e sorrisos, que o Cinema não se esqueça do rosto de Zain Al Rafeea.




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