terça-feira, 7 de março de 2017

Insubstituível | CRÍTICA


Ser um médico, presumivelmente, é muito mais do que as típicas aparências de um profissional bem-pago que passou pelos mais concorridos vestibulares e por anos de faculdade e residência relegado a um ininterrupto estudo sobre o corpo humano. Mais do que exercer uma vocação de constante necessidade para o bem-estar da população, é preciso ter sensibilidade diante de tantos pacientes que passam pelos seus consultórios, além do cotidiano testemunho da vida e da morte. O que se vê em Insubstituível, portanto, é mais do que a compreensão e o apoio às pessoas que entram e saem da clínica, mas também um chamado para o clássico provérbio do "cura-te a ti mesmo".


Conduzida sem exageros pelo diretor Thomas Lilti, a trama segue a rotina do Dr. Jean-Pierre Werner (François Cluzet, do adorado Intocáveis) como o médico rural (numa livre tradução do título original, Médecin de Campagne) de uma região do interior da França, dia e noite atendendo desde crianças a idosos, seja nas residências destes ou no próprio consultório, que também vive cheio. Há tantos anos no auxílio da comunidade, o médico se tornou um profissional de confiança unânime e que dificilmente poupa palavras para fazê-los se sentir bem. É Werner, por outro lado, que se encontra numa situação difícil, diagnosticado com um tumor maligno que não só coloca sua vida em risco, mas também se ressente em ser substituído do cargo e, assim, deixando a comunidade em prováveis más mãos.


Pragmático por sua formação em Medicina, Lilti apresenta fatos interessantes que não deixam de somar diversão à história, tal como a mania de médicos em interromper a fala dos pacientes numa média de 22 segundos, quando poderiam narrar o próprio diagnóstico, além de cutucar o descaso de grandes hospitais com pacientes idosos e a especulação imobiliária de abrigos. Ao introduzir a médica Nathalie Delezia (Marianne Denicourt), é formada uma boa dinâmica entre ela e Werner, mesmo que ele custe a admitir isso, fazendo provocações cômicas ou repreendendo por alguma atitude tomada por ela no caso de algum paciente. Todavia, o longa peca ao sugerir um irresoluto flerte entre os protagonistas, além de pouco explorar o impacto da doença em Werner e a reação da família, que aparece em poucas cenas e mal fica sabendo de sua situação.

Montado de forma simples, Insubstituível foi o filme francês mais assistido em seu país de origem em 2016 e tal sucesso justifica-se nas ações cativantes dos personagens, embalados por músicas (americanas) alegres ou bucólicas que não deixam a tristeza dos dias nublados, tal como registrados na fotografia, tomar conta. Uma comédia dramática agradável, eficiente também em sua crítica a um sistema de saúde que carece de profissionais dedicados e assim sobrecarrega aqueles já atuantes que, de uma forma ou de outra, também necessitam de uma boa consulta.



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