quinta-feira, 23 de março de 2017

T2 Trainspotting | CRÍTICA


Vinte anos se passaram e o mundo parece bem diferente daquele que vimos quando Mark Renton (Ewan McGregor) deu no pé com 16 mil libras e deixou seus amigos para trás às sombras do vício e do crime. Os melancólicos dias nublados e torpes do passado dão lugar a várias imagens ensolaradas e de pessoas correndo em esteiras e parques, revelando aí um contemporâneo vício pela endorfina e a escolha por um vida saudável – ou em prol das aparências. Ao retornar para a Escócia, Renton só não esperava que seu acerto de contas renderia uma recaída que faz de T2 Trainspotting um filme que encontra o momento certo para se entregar à lisergia visual e cômica que consagrou o cult de 1996.


Novamente dirigido por Danny Boyle a partir do roteiro de John Hodge (Em Transe), que toma como base os escritos de Irvine Welsh, T2 toma um bom tempo de tela para situar o quarteto de amigos em seus dias atuais em meio a resignação e ao ressentimento com seus malfeitos da juventude. Spud (Ewen Bremner) conforta-se com a solidão ao abandonar a mulher e o filho que pouco viu crescer para não fazê-los sofrer por seu vício incontrolável por heroína, algo que só aumenta a ideia de suicídio. Franco (Robert Carlyle), ou "Begbie", tenta de tudo para sair da prisão onde só aumentou sua insanidade, a ponto de, já livre da cadeia, fazer o filho seguir a infame "carreira" de ladrão. Outrora "Sick Boy" e melhor amigo de Renton, Simon (Jonny Lee Miller) comanda o decadente pub deixado por sua tia e, muito influenciado pela parceira de crime Veronika (Anjela Nedyalkova), pretende montar um promissor prostíbulo no local e assim trazendo mais prosperidade a uma região pra lá de decadente, tendo a moça búlgara como cafetina. Uma empreitada que, depois de socos, abraços e conversas, faz com que Renton entre nessa nova roubada a fim de quitar a dívida com seu "irmão de sangue" e demais companheiros.



Das revisitas aos cenários e locações icônicas do primeiro filme, além do carregado sotaque escocês do elenco e a ótima trilha sonora que traz Queen e tantas outras canções contagiantes, T2 Trainspotting parece bem menos disposto a refletir o efeito moral das drogas ilícitas e suas consequências, optando pelo aprofundamento da história de seus personagens mais por apreço do que pela condução da narrativa sem ter receios de ser nostálgico ao apresentar vários flashes da infância e da conhecida juventude. Se por um lado é triste ver o quarteto ressentido em alguns momentos, não tarda para que o roteiro compense com sequências divertidas, tendo como máximas a do roubo dos cartões de crédito num bar de protestantes saudosos, o pitching numa companhia de empréstimos e o tenso reencontro entre Renton e Begbie que vai do banheiro de uma casa noturna às ruas de Edimburgo. Kelly MacDonald e James Cosmo aparecem em pontas breves, mas informativas o suficiente para mostrar aquela que foi a única da antiga turma que conseguiu crescer na vida e um pai, agora viúvo, cujo relacionamento com o filho é tão longínquo quanto a distância da câmera aos personagens enquadrados e seu diálogo de poucas palavras.



Comumente virtuoso, Danny Boyle entrega mais uma decupagem ousada que não deve nada para o seu fascinante e mórbido trabalho realizado há duas décadas, resgatando aqui os recursos multimídia assim vistos em Steve Jobs, refletidos nas projeções alucinógenas ou nas mensagens de texto que surgem como letreiros (economizando, assim, vários planos-detalhe), apresentando na montagem justaposições curiosas por sua habilidade em fazer o velho transitar entre a atualidade, aguçando ainda mais os espectros de culpa para os personagens, ou quando um destes pretende se sufocar e a sensação sugerida é como se despencasse do último andar de um decadente prédio. As sequências de planos também denotam a extravagante composição de Boyle e do diretor de fotografia Anthony Dod Mantle (No Coração do Mar) ao posicionar a câmera com todos os enquadramentos e angulações possíveis em tempo de não defasar a estética já estabelecida.



Para quem, de uma forma ou de outra, tanto se identificou com a azarada turma de escoceses ao longo dos anos, o longa é um daqueles típicos reencontros de amigos que muito se fala mas, sob o efeito da embriaguez, nem tudo é entendido claramente. Ainda que os rapazes mantenham segredos escondidos até o último momento, não há porque omitir o fato de o roteiro exagerar na carga de incidentes que, entre um e outro, passa a apelar para a redundância e também pelo súbito tom violento no clímax. Na dúvida se era necessário ter uma continuação, T2 Trainspotting prova a que veio com suas alfinetadas precisas a sociedade que não transcendeu muito de lá pra cá, e o monólogo epifânico de Renton é fulminante o suficiente para justificar isso. Na escolha pela vida, sujeita a tantas frivolidades, o melhor é aproveitar o que os arbitrários prazeres da amizade têm a oferecer sem se importar com "o peso da idade", nem que seja para ser apenas um turista do próprio passado. 




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