segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Pantera Negra | CRÍTICA


Em fase de celebração por sua bem-sucedida primeira década de atividade desde que lançara Homem de Ferro nos cinemas, o Marvel Studios se tornou referência de cinema de entretenimento para o grande público aliado ao carisma de seu elenco de primeira linha e com suas histórias acessíveis que dificilmente desrespeitaram os fãs de longa data do cânone dos quadrinhos. Afora todos esses elementos contribuintes para o estabelecimento de uma fórmula de narrativa que, passados mais de quinze longas-metragens, dá sinais de saturação por se ater com inerência a uma estrutura tão parecida, este grande projeto cinematográfico capitaneado por Kevin Feige também foi audacioso em escalar ótimos atores negros para personagens originalmente caucasianos (o Nick Fury de Samuel L. Jackson, o Heimdall de Idris Elba, o Barão Mordo de Chiwetel Ejiofor, a Valquíria de Tessa Thompson) enquanto se preparava para introduzir seu primeiro protagonista negro e africano ao universo logo quando a representatividade é cada vez mais cobrada em peso na indústria – não se tratando apenas a ter mais atores e atrizes em cena, mas como diretores(as) e demais profissionais artísticos oriundos das minorias. Finalmente, após a aprovação pelos espectadores com seu teste em Capitão América: Guerra Civil, chegou a vez do Pantera Negra ter um filme para chamar de seu e, entrementes sua importância cultural, também traz novidades necessárias para o storytelling de seu estúdio. 

Para o diretor Ryan Coogler e o corroteirista Joe Robert Cole (egresso de episódios da série American Crime Story), ter em mãos um personagem e um universo tão representativo como T'Challa e sua nação de Wakanda significava mais do que ter de realizar mais um habitual capítulo do Universo Marvel, mas dar a oportunidade para as crianças e jovens da periferia de encontrar um igual para se espelhar e assim se imaginarem tão poderosos quanto – na carência disso, restava-lhes então encontrar seus ídolos no esporte, sobretudo no basquete (como sugere a cena situada em 1992 na Califórnia). Além disso, Coogler e Cole atribuem motivações a heróis e vilões que não se resumem apenas a defender/proteger ou querer dominar/destruir o mundo da forma mais genérica possível; questões como opressão e discriminação racial sentida há décadas por todo o globo, além da abusiva extração dos mais diversos recursos da África pelos colonizadores, polarizam o pensamento do Rei de Wakanda (dispondo-se a reverter o posicionamento de seu país perante o mundo) e daqueles que surgem das sombras para requisitar o trono para, disso, fazer justiça (ou seria vingança?) com as próprias mãos.


Sendo um dos filmes de origem mais caros produzidos pela Marvel, a Wakanda que surge em tela esbanja riqueza nos mínimos detalhes e louva a sua negritude a partir de seu vasto e competente elenco, assim como oferece a oportunidade para a figurinista Ruth Carter (Selma, Amistad) e a designer de produção Hannah Beachler (Moonlight, Creed) para utilizarem os diversos motivos das culturas africanas e, assim, criarem a identidade do mítico país retratado. Sendo uma civilização altamente tecnológica graças às maravilhas providas pelo mineral vibranium e que nunca se viu forçada a abandonar seus costumes tribais devido a influências estrangeiras, Wakanda surge sempre vívida e ensolarada refletindo as cores quentes, adornos e texturas belamente trabalhadas dos trajes vestidos pelas personagens enquanto que, apesar de algumas tecnologias (retratadas em tons azulados e metálicos refletindo o futurismo) figurarem um tanto exageradas e até cafonas (tal como as vídeo-chamadas por hologramas), tais elementos sugerem uma hipótese, ainda que muito da utópica, do quão ricos muitos dos países da África subsaariana seriam caso não tivessem passado pelos infames eventos do tráfico negreiro e do imperialismo.

Tamanha produção de atitude, é seu elenco bem selecionado que se torna o porta-voz de personalidades fortes demonstrando outro cuidado da narrativa ao estabelecer a hierarquia do país com figuras da realeza, místicas, cientistas, militares e anarquistas com traços distintos. Atores veteranos de peso como Sterling K. Brown e Forest Whitaker não escondem a mágoa contida em suas falas embargadas enquanto Angela Basset é dona de uma elegância real que ninguém é capaz de tirar e, se o Erik Killmonger de Michael B. Jordan prende a respiração do espectador todas as vezes em que surge intimidador em cena, acaba que são as demais mulheres de Pantera Negra que se tornam o maior chamariz do filme com suas performances magnéticas. Fato compreensível dado o sucesso de Mulher-Maravilha em 2017 com suas Amazonas robustas e independentes, é a guarda das Dora Milaje comandadas pela resiliente Okoye (Danai Gurira, incrivelmente feroz) que protegem o rei de quaisquer ameaças, é a Shuri da ótima revelação Letitia Wright que está à frente dos avanços científicos de Wakanda (a ponto de fomentar um preconceito masculino vindo de outra tribo), desenvolvendo um traje cinético para T'Challa e com a cabeça sempre pensante feito um Tony Stark e, assim como Lupita Nyong'o finalmente ganha um merecido papel interessantíssimo quatro anos após sua oscarizada performance em 12 Anos de Escravidão, surpreendendo não só pela veracidade com que emprega o discurso libertário de Nakia, como encanta por sua desenvoltura na hora do combate.


Dito isso, sem se esquecer das contribuições divertidas (na medida certa) que Andy Serkis e Martin Freeman acrescem ao longa com, respectivamente, um mercenário meticuloso em seus crimes e um agente da CIA que pode provar o seu valor além das burocracias, chega a ser estranho pensar que é logo o protagonista do filme que aparece como o personagem mais apagado da trama. Sem o mesmo porte colérico que o apresentou no filme de 2016, Chadwick Boseman se esforça para ser carismático e um combatente nato independente de seu super-traje; entretanto, faltam-lhe momentos e até mesmo uma postura dignamente emblemática tal como tantos outros heróis da Marvel apresentam com facilidade. Ocasionalmente prejudicado ora pela substituição de um dublê digital gritante ora pelas cenas escuras claudicando a ação marcial do Pantera Negra, é decepcionante inferir que essas falhas podem se atribuir a Ryan Coogler que, após seu arrebatador trabalho de direção visto em Creed: Nascido Para Lutar com tantos planos-sequências inteligentes e composições de cenas inspiradas, por vezes parece estar mais inclinado a desenvolver o vilão de Michael B. Jordan (não por menos, o astro do diretor desde Fruitvale Station) e as principais personagens femininas, ainda que demonstre confiança e empolga com sequências pra lá de arrojadas num cassino e nas ruas noturnas de Busan, além de toda a tensão num conflito final que, por fim, ensina a Marvel o que significa uma "guerra civil".

Num todo, porém, Coogler e sua diretora de fotografia Rachel Morrison (indicada ao Oscar por Mudbound) se veem em apuros toda a vez que precisam lidar com cenários externos envolvendo green screens, culminando em tantos picotes de planos demonstrando uma mise-en-scène atrapalhada que nos remetem aos mais simplórios episódios de seriados da TV.  Logo quando deveriam ser nossos guias, a dupla mais parece dois turistas perdidos na imensidão geográfica de Wakanda, o que não quer dizer que sejam falhos em todo o longa; há movimentos extravagantes que dão ritmo um estilo característico à ação.


Um tanto quanto exagerado com sua operística de tragédia de família real que faz de seus 134 minutos de projeção numa experiência mais cansativa do que deveria ser e levando em consideração que seu contexto precisa recorrer a metáforas para conversar com seu espectador representado e que um pouco mais de tato na relação do Rei com seu Povo o tornaria num autêntico e "novo" herói popular por direito (ao invés de apenas passear por uma rua ou propor soluções em seu desfecho), de qualquer forma, Pantera Negra (Black Panther) é digno de todos os seus méritos justamente por se fazer uma influência a todos que querem se inspirar com algo nitidamente bonito que, seja por sua mensagem ou por sua arte, vindo do modus operandi do Marvel Studios, é em si vitorioso por ser um eficiente e promissor modelo a ser seguido.

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