quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulher-Maravilha | CRÍTICA


Até chegar o dia ao qual a Mulher-Maravilha fez sua entrada triunfal nos cinemas com Batman vs Superman, a personagem criada por William Moulton Marston se viu embargada em anos de receios, ainda mais quando o cenário comercial preferia apostar apenas nos sucessos editoriais da DC Comics, isso porque não foi por falta de tentar. Na década passada, por exemplo, falava-se de uma suposta escalação de Sandra Bullock, de um filme da Liga da Justiça planejado por George Miller e de um roteiro assinado por Joss Whedon que nunca chegaram a receber o aval da Warner para suas devidas produções. A demora veio a calhar e Gal Gadot entregou o que os fãs consideram um dos melhores momentos no discutível filme de Zack Snyder e, agora sob a direção Patty Jenkins, a atriz israelense dedica-se até a alma pela heroína em um longa de origem cuja mensagem altruísta surge completamente necessária ao seu gênero e ao contento de suas audiências.


Mesmo com poucos títulos no acervo, o Universo Expandido da DC nos cinemas ficou facilmente reconhecido pelo tom soturno herdado de Christopher Nolan e pelo esmero técnico e artístico que culminou na entrega do Oscar de Melhor Maquiagem para Esquadrão Suicida, pegando de surpresa todos aqueles que achavam o filme de David Ayer digno de todos os deméritos possíveis, tal como Batman vs Superman e sua carência de um roteiro com melhor elaboração de suas cenas e diálogos. Ainda antes, em 2013, o público viu em O Homem de Aço um bem-vindo e revigorado conceito ao Filho de Krypton, mas a predileção ao espetáculo destrutivo por parte de seu diretor contrariou as expectativas daqueles que esperavam reencontrar o habitual heroísmo solidário do personagem.



Para a alegria geral das nações, isso é bem diferente com Mulher-Maravilha (Wonder Woman). Egresso de séries com protagonistas femininas como Gilmore Girls e Grey's Anatomy, Allan Heinberg investe em um roteiro auspicioso que evita asserções falaciosas e que acerta ao apresentar uma Diana ingênua perante as frivolidades do mundo mortal, mas lúcida e destemida o suficiente a ponto de se adaptar em qualquer situação imposta. Cientes de que a empatia se gera a partir do acompanhamento da jornada das personagens ao invés do conhecimento prévio destas, o roteirista e a diretora tecem uma história prazerosa de se assistir que vai da paradisíaca Temiscira, passando pela cinzenta e poluída Londres aos redutos ocupados pelos alemães da Primeira Guerra Mundial com uma qualidade narrativa rara em comparação com os outros filmes do mesmo universo, acertando no bom humor sem que pareça forçado, apesar do clímax final surgir um tanto deslocado e mais poderoso do que foi visto até então. Com carisma e entretenimento de sobra, há um pouco de tudo no roteiro: literatura pulp, aventura, romance e óbvios momentos típicos dos dramas de guerra, só não há espaço para cenas breves, desarticuladas e com pobreza criativa.


Revelando ser uma ótima diretora para cenas de ação, Patty Jenkins traz as Amazonas em todo o seu imponente esplendor nas areias de Temiscira ou, na melhor hora da super-heroína, na deslumbrante sequência que vai das trincheiras e a Terra de Ninguém até chegar ao vilarejo belga ocupado, apresentando todo o poder de Diana ante seus companheiros recorrendo ao uso de câmeras a pino, revelando amplas perspectivas dos desoladores campos de batalhas que gritam por seu fim, e uma recorrência maior ao slow motion por mais que pareça um vício de linguagem adquirido do produtor Zack Snyder – mas se o faz, é porque fica bonito e impactante na tela. Só é uma pena que cenas envolvendo dublês digitais das personagens pareçam tão artificiais que isso acaba virando um vilão para o filme, todavia longe de ser algo completamente prejudicial a experiência.

Outro inegável acerto de Jenkins é a dinâmica bem trabalhada do elenco. Longe de ser a performance definitiva de sua carreira, receios desaparecem quando Gal Gadot aparece com a armadura e, ao abraçar a inocência em questão, acresce à heroína uma camada crível e cheia de graça, agora munida de frases melhores do que em sua estreia no ano anterior e estabelece boas parcerias com Connie Nielsen, Robin Wright (e é um alívio vê-la bem mais expressiva do que em House Of Cards) e Lucy Davis, que interpreta a irreverente secretária Etta Candy. No entanto, é com Chris Pine (Star Trek, A Qualquer Custo) que Gadot faz uma dupla magnética e, juntos, movem a trama com o aprendizado mútuo com uma química eficiente que, além da já mencionada boa dose de humor e pancadaria, traz um lado sensual admirável sem soar forçado; pelo contrário, reitera um específico pensamento da princesa amazona. Danny Huston e Elena Anaya estão bem em seus antagonistas ao se portarem bastante cruéis (e ambos chegam a gargalhar depois uma maldade cometida), mas ao estarem subjugados ao omisso vilão principal, existe a impressão de que faltou algo que os tornassem devidamente marcantes.



Com uma empolgação radiante toda a vez que toca o tema composto por Hans Zimmer (Rupert Gregson-Williams assina a trilha sonora desta vez), Mulher-Maravilha acerta em cheio no tom de sua aventura que faz mais do que apresentar planos emblemáticos, além de merecer toda a atenção por sua representatividade feminina evidente no elenco e na equipe técnica que pode e muito mudar o cenário na indústria num futuro próximo. Assim, embora o fim de todas as guerras esteja distante de acontecer na realidade, é ao acreditar que heroísmo se molda a partir do senso de alteridade acima de qualquer super-poder ou artefato em mãos que Patty Jenkins entrega uma obra divisora de águas dentro e fora da DC Comics, provando que é a boa vontade que inspira um ideal pelo qual lutar e fazer maravilhas.



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