quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Três Anúncios Para Um Crime | CRÍTICA


É compreensível que a impunidade continue a gerar tanta revolta na sociedade atual a julgar pelos constantes casos de corrupção e crimes fatais tratados com pouco caso por um sistema judiciário estagnado, vide seus julgamentos parciais ou ainda por seus excessos de regalias que o tornaram um tanto quanto acomodado. Das manifestações populares de motes coléricos que cobram punições imediatas e, a partir daí, elegem supostos líderes que prometem o que o povo tanto quer sem ter consciência do peso do próprio discurso e que tampouco cumpram sua cota de honestidade no dia-a-dia, ainda há uma pequena parcela que busca fazer justiça com as próprias mãos e, mesmo com tamanha coragem perante consequências inestimáveis, apenas querem fazer a diferença ou cortar o mal pela raiz. 

Não seria por acaso, então, que Três Anúncios Para Um Crime surgisse como uma amálgama para estes problemas que igual se refletem há décadas nos Estados Unidos da América que, tendo eleito recentemente um presidente cuja campanha reforçava uma gestão de pró-atividade a partir de medidas pouco éticas, persiste em demonstrar atos de violência decorrentes de uma onda de intolerância e de comportamentos abusivos endossados indiretamente pela voz do representante máximo de sua nação. Embora alheia em ser uma obra que conteste o atual cenário político do país, a trama escrita e dirigida por Martin McDonagh coloca como protagonista uma mulher separada e próxima da meia-idade residente de Ebbing que, desgostosa do sedentarismo da polícia local na investigação do assassinato e estupro de sua filha há sete meses corridos, decide provocar o xerife da cidade com nada mais do que três polêmicas perguntas estampadas em outdoors até então abandonados em uma rodovia. No aguardo das respostas que quer ouvir, esta mãe frustrada chamada Mildred Haynes é confrontada com outras perguntas, ofensas e potenciais candidatos a inimigos, o que não quer dizer que, naquela pacata cidade, ela não vá encontrar aliados que também esperam ver o velho moralismo do interior do Missouri pegar fogo.

(Fox Searchlight/Divulgação)

No que pode ser considerado seu filme menos histérico em busca de uma maturidade aprazível, McDonagh faz de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri uma narrativa a fim de explorar os tipos comuns do meio-oeste americano reforçando-os com um sarcasmo nada comedido em seu linguajar e até mesmo em suas atitudes, sendo, assim, um filme mais inclinado ao desenvolvimento de suas personagens do que uma extravagante produção cinematográfica que se deixa guiar por sequências imagéticas repletas de semiótica. Portanto, a Mildred Haynes de Frances McDormand é uma mulher que há tempos desconhece a vaidade, dona de um semblante pouco afetuoso que viu o rancor substituir a dor pela filha perdida, esforçando-se aí para se dedicar ao filho (vivido por Lucas Hedges, tão bom quanto em Manchester à Beira-mar) que, por outro lado, se empolga com a chegada do pai – acompanhado da namorada anos mais nova. Na delegacia chefiada pelo enfermo Willoughby (Woody Harrelson), os oficiais vivem uma rotina de pouca produtividade a não ser quando o distintivo serve como artifício para "carteiradas" e, com isso, agindo e punindo como bem quiserem, como no caso do conturbado Jason Dixon, mais instruído pelo que sua masculinizada mãe pensa do que pelos preceitos de seu esperado dever cívico. Ator de papéis comumente afetados, Sam Rockwell cresce em cena com seu personagem inicialmente repugnante que, a partir de sua merecida punição, se destaca por não medir esforços para se redimir de uma forma tão intensa e volátil quanto as atitudes de Haynes.

(Fox Searchlight/Divulgação)

Apesar de não se aprofundar nos retratos de outras personagens femininas (o que leva Abbie Cornish a ter um papel convencional e posteriormente deslocado) e que seu convite ao riso seja por uma zombaria sagaz na maior parte do tempo (tal como os momentos do sempre ótimo Peter Dinklage em ação), além de McDonagh muito transparecer sua inspiração em obras similares dos irmãos Ethan e Joel Coen (perdendo aí um pouco do ineditismo da obra), Três Anúncios Para Um Crime ainda é digno de seus méritos especialmente por suas sequências derradeiras que culminam num anticlímax inquietante, mas não menos satisfatório. Vencedor do Globo de Ouro por Melhor Filme de Drama e indicado a 7 Oscars, o filme prova que, mesmo nesta decepcionada América que não dá mais trela ao velho "bom-mocismo" e descrente em seus líderes políticos, ainda há espaço para pequenos gestos altruístas como os de Mildred Haynes, que, com toda a força que Frances McDormand emprega (sendo aí muito mais um trabalho da atriz do que do cineasta que assina a obra), comprova o que o cinema faz de melhor ao seu público: a chance de uma catarse de seus anseios na pele de uma impetuosa protagonista; uma rara e improvável heroína que não se vê nas HQs lidas por Dixon na delegacia e bem pouco na nossa realidade, onde muitos e muitas se deixam comedir em seus confortáveis assentos diante dos mesmos e pessimistas informes televisivos.




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