quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A Forma da Água | CRÍTICA


Guillermo del Toro é daqueles raros tipos de cineastas que jamais se abdicaram de suas paixões para realizar bons filmes e que, por isso, se torna cada vez mais admirado justamente pela projeção de universos tão ricos em seus aspectos artísticos que, além da predileção a efeitos práticos com um toque mais artesanal, tem como aliado um competente suporte técnico sempre a favor da narrativa – tanto é que muitos até hoje não hesitariam em pagar para ver o que o diretor mexicano faria com O Hobbit. Tamanho apreço pelo cinema a ponto de se ver a todo o tempo confabulando sobre novos projetos (embora esteja longe de tê-los realizado em maioria), del Toro volta-se novamente para os seus estimados filmes de monstros a fim de tocá-los com uma nova roupagem e, subvertendo estereótipos, faz de A Forma da Água uma obra sensível e madura sem deixar de declarar seu amor pelo cinema que o trouxe até aqui e o seu respeito por todos aqueles vistos como peculiares que fazem deste mundo algo especial.

Escrito pelo diretor em parceria com Vanessa Taylor (Divergente, Game Of Thrones), A Forma da Água se passa em meados da década de 1960 nos Estados Unidos e com direito à velha paranoia da corrida espacial onde cada avanço científico qualquer já é de grande vantagem na Guerra Fria contra uma União Soviética em aparente vantagem. No marasmo de um dos laboratórios secretos do governo na predominante úmida Baltimore, trabalha a zeladora Elisa Esposito (Sally Hawkins), muda devido a um acidente na infância, mas dona de ouvidos e olhos aguçados e que conta com o apoio inestimável de sua colega Zelda (Octavia Spencer) quando é preciso ter uma voz para falar por ela, uma vez que nem todos entendem a língua de sinais (ou tampouco querem fazer isto…). No entanto, sua tão cronometrada e pacata rotina logo é alterada quando um humanoide anfíbio da Amazônia é levado para as instalações do laboratório e ser estudado pelos cientistas em busca de um diferencial na guerra; porém, ao contrário do que esperavam, a Forma é difícil de domar – agride, morde e, disso, é acorrentada e ferida – e os superiores não pensam em outra coisa além de dar um fim na fera tamanho fracasso. Sentindo compaixão pela Forma a partir do momento em que enxerga no ser um alguém excluído tal como suas amizades, Elisa se vê obstinada a interromper o ciclo de crueldade que testemunha (e que precisa limpar) diariamente.


Enquanto fábula moderna por definição, não seria novidade atestar que o cineasta não tem receios de inserir passagens explicitamente mórbidas ou eróticas que tragam ao longa um quê de inédito entre seus irmãos de fantasia (apesar de não ser novidade dentro da filmografia do diretor, vide A Colina Escarlate) acima de sua previsibilidade que não lhe é de todo o mal, tratando de prevalecer um afiado bom humor na maior parte de seu conto sombrio. Com personagens bem delineadas, embora Spencer merecesse um papel além de suas características já vistas em Estrelas Além do Tempo, encontramos no vizinho de Elisa (Giles, vivido por um ótimo Richard Jenkins) um homem de meia-idade gracioso que nem sempre consegue conter sua amargura dado o seu afastamento involuntário do mundo externo e profissional devido às suas "opções", apesar de ser um pintor talentoso cujo gosto refinado por arte se estende para os antigos musicais transmitidos em seu televisor de tubo que, por vezes, são complementados com os ecos das falas entoadas nos épicos bíblicos projetados na desabitada sala de cinema abaixo dos apartamentos. Da parte de Michael Stuhlbarg, que comprova estar em uma ótima safra de filmes, lhe é designado o papel do Dr. Hoffstetler que se figura longe de ser o típico cientista louco das fitas de monstros do passado, mas alguém que passou a compreender que o valor de uma vida está acima de qualquer interesse científico ou de questões patrióticas que, por outro lado, sempre terão algum custo derradeiro.


Dono de uma entrada dramática que não poderia se projetar mais clássica e hábil em compor vilões bastante motivados, Michael Shannon faz de seu agente Strickland a completa derrocada do cidadão branco legitimamente americano ao invés de pontuá-lo apenas como um sujeito maléfico. Com um intelecto que se preza a julgar as pessoas pela etimologia de seus nomes e a inventar fetiches repugnantes, o chefe de segurança do laboratório surge como um homem característico de seu tempo que não teme nada a não ser seu Deus (e olhe lá…) e que faz questão de provar a todos e a qualquer custo que é tão seguro de si que, no fundo, não deixa de ser mais um influenciado pelos padrões vendidos pelo American way of life. Com isso, chega a ser cômico notar como Strickland gradualmente se deixa levar por opiniões alheias a fim de consumir o que, supostamente, lhe manterá a aparência viril que tanto se preocupa em mostrar ao passo em que é irônico vê-lo em família em cores e trajes semelhantes aos da ilustração publicitária feita por Giles momentos antes. Periféricos ou excluídos ao tal modelo de vida vigente na época (e há quem queira perdurar isso até hoje), del Toro prova que são aqueles vistos como diferentes que são donos e donas das mais originais personalidades e que encontram o verdadeiro prazer nas mais singelas das coisas.

Indicado a 13 Oscars que compreendem os méritos do design de produção de Paul D. Austerberry e sua mescla eclética de estilos que vão do antiquado (dos apartamentos) e exótico (fazendo do Abe Sapien também encarnado por Doug Jones em Hellboy um rascunho perto da complexidade que é a anatomia da Forma) ao mecânico e futurista cujos cenários fascinam pela sua minuciosidade e pela fotografia lúgubre de Dan Laustsen a ponto de estabelecer uma iluminação igualmente narrativa e os tons de verde em destaque, The Shape Of Water (no original) também ganha um trabalho de edição inteligente ao se apropriar de sons para interligar cenas e de um sistema de imagens que dá fluxo e torna a projeção mais agradável, além de soltar pistas sutis ao passo em que sempre está disposto a surpreender seu espectador com tamanha beleza em cena.


Porém, muito do que é bonito aqui é motivado por uma delicadeza que, no final das contas, ainda parece ser um dos pontos fracos do diretor – lembrando que A Colina Escarlate também possuía as mesmas características e que a tornava numa obra progressivamente vaga. Seja por um impulso para tentar agradar o gosto requintado da Academia (as homenagens são um bônus à história e um deleite para os que viveram o cinema naquele tempo), é verdade que Sally Hawkins está completamente entregue a sua personagem, mas por vezes seus trejeitos remetem a uma mímica pouco inspirada de Amélie Poulain; algo que a afrancesada e didática trilha de Alexandre Desplat só tende a prejudicar ao ressonar conhecidas notas apaixonantes em constância tal como no longa de 2001 estrelado por Audrey Tautou ou até em algumas animações da Pixar. Ressalvas a parte, A Forma da Água se prova digno de todas as suas recepções calorosas não só por todo o seu valoroso potencial imagético e por seu escapismo volta-e-meia necessário no cotidiano, mas por mostrar que o futuro do cinema só tende a imergir nessa esperada – ainda que tardia – inclusão imaginativa.



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