quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente | CRÍTICA


Há tempos a bibliografia de Agatha Christie não dava as caras no cinema e, por tal ausência, não há suspeitos mais prováveis do que os estúdios e sua insistente empreitada em acompanhar os efêmeros sucessos literários que, como na maioria dos casos, são vendidos mais por sua repercussão do que pela qualidade narrativa em si ou, a título de uma óbvia comparação, o predomínio do estilo enérgico de Sherlock Holmes (e suas três distintas adaptações na última década) que caiu no gosto de quem aprecia histórias inteligentes ou das mais improváveis reviravoltas. Logo, se os tomos da Dama do Crime pareciam defasados a uma primeira (e preconceituosa) vista para um público apegado a sua atualidade, a condução de Kenneth Branagh para Assassinato no Expresso do Oriente prova que a detetivesca narrativa da autora se mantém sagaz e à frente dos breves modismos do gênero policial.

Produzido por nomes influentes como Ridley Scott e Simon Kinberg (X-Men), a trama roteirizada por Michael Green (Blade Runner 2049, Alien: Covenant, Logan) remonta ao ano de 1934, onde o renomado detetive Hercule Poirot (Branagh, abraçando mais um elegante personagem) nada mais quer do que umas merecidas férias após desvendar delitos banais e embarca no Expresso do Oriente a convite de seu amigo, o Monsieur Bouc (Tom Bateman), em Istambul juntamente de outros treze passageiros de locais de origem distintos, mas donos do mesmo semblante entojado. Em meio a esse prenunciado clima de hostilidade fomentado pelo preconceito racial e/ou socioeconômico, Poirot é forçado a iniciar uma investigação quando um assassinato é cometido durante uma gélida noite; um crime que aponta uma obtusa resolução para o detetive e para a sua moral irredutível prestes a ser abalada. 


De início, eu jurava que a direção comumente extravagante de Kenneth Branagh deixaria a narrativa mais luxuosa do que necessário e a verdade é que, excetuando alguns cenários externos digitais e monocromáticos flashbacks que tiram um pouco do charme da obra, a condução do diretor de Thor e Cinderela se mostra mais do que ideal para a produção, ainda mais quando sua tão carismática interpretação para o detetive belga surge como a maior força-motriz do filme justamente por dispensar análises microscópicas para encontrar pistas, além de ser um sujeito que gosta de comer bem e adora se divertir com suas leituras de Charles Dickens. Branagh também confere movimentos de câmera elegantes e funcionais a favor do tom da narrativa em parceria com o diretor de fotografia Haris Zambarloukos (Thor, Mamma Mia!), sendo interessante notar como os planos a pino ou o uso de uma lente grande angular vem a calhar em virtude dos cômodos apertados dos cenários ora omitindo ora revelando informações ao espectador, da mesma forma que faz uma peculiar introdução dos passageiros com planos abertos e de passos lentos, embora isso, a princípio, acarrete em uma antiquada e pejorativa marcação teatral. Das analogias bíblicas evidentes no primeiro e no terceiro ato a partir de uma específica locação e da mise-en-scène dispondo os suspeitos ante uma mesa, além do seu amparo em deixar Michelle Pfeiffer sempre ótima e perigosamente sensualíssima, assim como eleva Josh Gad a ser mais do que um ator cômico e Judi Dench como uma velha princesa rabugenta, desde já, a articulação cênica de Branagh projeta uma modernizada abordagem para o merecido estabelecimento de uma franquia que já tem programado um novo e acalentado local para desembarcar e solucionar uma outra morte.


Trazendo, inclusive, bons momentos de interação de Poirot com as personagens de Penélope Cruz e Willem Dafoe, enquanto Daisy Ridley (a Rey de Star Wars) busca amadurecimento em sua carreira e Johnny Depp se dispõe a ser punido em cena por sua recente má reputação, o que leva ao posterior e difícil dilema sobre a moralidade da justiça feita com as próprias mãos, Assassinato no Expresso do Oriente (Murder On The Orient Express) é o filme de detetive pelo qual estávamos esperando em 2017 e, tão importante quanto, por sua eficácia em instigar o resgate literário que, assim como eu, fará muita gente se surpreender com a sagacidade dos casos e das reviravoltas inigualáveis da Dama do Crime.




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