sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Blade Runner 2049 | CRÍTICA


Acima das diferenças entre o livro escrito por Philip K. Dick nos anos finais da década de 1960 e o filme dirigido por Ridley Scott, com um lançamento subestimado em 1982 e revivido outras vezes em novos cortes, a essência por trás de Blade Runner (ou de "Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?", seu livro de inspiração) sempre foi mais do que a mera caça aos replicantes transgressores, mas a busca pela empatia em uma megalópole que não se conteve nos avanços da globalização e se tornou tão química, visual e verbalmente poluída que compreender a si mesmo e ainda se condoer pelo próximo se tornavam atitudes raras. Das respostas que ficaram no ar há 35 anos, continuamente empoderadas pelo culto da cinefilia que fez de um fracasso de público e crítica a um clássico film noir revisionista, a agora benquista sequência intitulada Blade Runner 2049 é resultado de uma soma de talentos artísticos interessados mais no teor inteligente e reflexivo de sua obra do que de seu valor mercadológico.


Hovercars, propagandas holográficas, colônias interplanetárias, indústrias de androides e animais cibernéticos, uma Terra praticamente infértil. Enquanto tal cenário está bem longe de ser nossa realidade de 2019, o mundo em Blade Runner continuou a se debater em busca de sua sobrevivência sintética, seja na alimentação ou até mesmo em busca de uma boa companhia lado a lado com a tecnologia. Três décadas se passaram e, nesse ínterim, uma poderosa corporação erguida por Niander Wallace (Jared Leto) erradicou a fome e retomou a produção dos controversos replicantes com a condição de que fossem mais obedientes aos humanos, apesar de alguns velhos modelos da falida Tyrell Corp. estarem em circulação na Califórnia e um deles, o agricultor Sapper Morton (Dave Bautista) está prestes a ser "aposentado" pelo agente K (Ryan Gosling) a serviço do LAPD. No entanto, o que era pra ser uma missão rotineira, acaba instigando K a descobrir um segredo que pode comprometer toda a ordem estabelecida entre a humanidade e os androides; um dito milagre que vai colocar o introspectivo agente em busca também do velho caçador Rick Deckard (Harrison Ford), agora (e há muito tempo) desaparecido e amargurado.



Da admiração unânime dos cinéfilos por sua filmografia que o condecorou como um dos diretores mais proeminentes da última década, Denis Villeneuve reitera o que aprendeu com o seu ótimo A Chegada munido, como sempre, de sua estética minimalista cuja condução do suspense através de pistas sutis e por vezes inesperadas resultaram nos melhores plot twists que o cinema tem projetado em anos – e se o filme estrelado por Amy Adams em 2016 não é o suficiente, tome como exemplos os ótimos Incêndios e Os Suspeitos com seus consecutivos e chocantes finais. Uma vez que o orçamento farto e o peso de Ridley Scott como produtor executivo tinham tudo pra gerar receios quanto ao filme se tornar uma continuação megalomaníaca (ainda mais julgando o desempenho de Alien: Covenant), acontece que todos os departamentos da obra são beneficiados, vide o ótimo design de produção que expande e atualiza o magnífico trabalho apresentado em 1982, os deslumbrantes efeitos visuais inseridos quando necessário em composições deveras artísticas (principalmente quando a excelente Ana de Armas e sua Joi entram em cena) até o elenco impecável cuja parcela feminina se destaca com mérito: desde Robin Wright (Mulher-Maravilha, House Of Cards), passando pelas menos conhecidas Mackenzie Davis (do episódio "San Junipero", de Black Mirror), Sylvia Hoeks e Carla Juri, todas demonstram ótimas performances. Entre tantos destaques, o que fica em desvantagem mesmo é a trilha de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch. Convocados em cima da hora, a dupla de compositores se mostra mais interessada em criar efeitos sonoros a partir de modulações remetendo às originais sinfonias eletrônicas tocadas por Vangelis no passado.

De praxe, Roger Deakins demonstra o que é desenhar com luz neste que já pode ser considerado um de seus mais expressivos trabalhos como diretor de fotografia. Ainda que se contenha em movimentos de câmera arrojados, afixando a favor da contemplatividade pretendida, Deakins utiliza as cores a fim de transmitir o estado de espírito dos personagens e os cenários por onde trafegam. Assim, boa parte das locações da Los Angeles (e arredores) futuristas são fotografados castigados pela chuva e com uma iluminação esbranquiçada refletindo os tons cinzentos das edificações tal como se tornou a personalidade humana, exceções a parte quando as luzes de hologramas e demais painéis luminosos banham o semblante sério de K; o dourado interior da construção faraônica da Wallace Corporation com o fluxo da água refletido nas paredes reforça, além do poderio da marca, a consecutiva criação de vida no local em contraste com o exterior tomado por um breu quanto boa parte da cidade; por último, o laranja tóxico que contamina a sequência na desolada Las Vegas não só se porta como um diferencial para a situação, como prenuncia o aumento da cadência das cenas de ação (um pouco de bom humor) ao filme, trazendo outra interessantíssima cena em um cassino.



Escrito por Hampton Fancher (um dos roteiristas do longa original) e Michael Green (que tem como títulos recentes Alien: Covenant e Logan), Villeneuve rege a narrativa em passos majoritariamente lentos a fim de fazer o público imergir na história e cada vez mais interessado na resolução do mistério (e o faz com eficácia), empreendendo uma considerável parte da narrativa para estabelecer todos os elementos que serão importantes para o seu restante. Entretanto, é notável como os roteiristas e o diretor parecem aderir ao cacoete de expressar toda a solitude de K em ações que podem ser consideradas vagas e por vezes didáticas enquadrando o personagem caminhando sozinho em planos gerais ou estabelecendo diálogos no habitual esquema de planos/contraplanos. Em comparação, Ridley Scott retratara a solidão de Deckard mesmo colocando-o sob letreiros poliglotas e entre uma população miscigenada e repulsiva nas esfumaçadas ruas de LA. Paradoxos entre estilos de decupagem a parte, ainda assim, tais escolhas atuais não comprometem toda a beleza explícita no novo filme; pelo contrário, só engrandecem a expansão desse futuro estranhamente fascinante.



Idealizando memórias



De volta ao livro original de Philip K. Dick, uma das principais motivações de Deckard para sair pelas ruas à procura de uma meia dúzia de androides era o alto valor de recompensa por cada cabeça e, disso, o detetive poder comprar um animal autenticamente natural e garantir um prestigiado nível social para ele e para sua esposa (tão dependente de um ininterrupto programa de TV) no prédio em que moram além de outros poucos moradores também criadores de animais. Nesta longa revolução industrial continuada em Blade Runner 2049, há demandas para todos os interesses e gostos e não seria por acaso que até lembranças sejam confeccionadas e que hologramas projetem uma vida sediada em um passado tido utópico, porém irreversível.

Não por acaso, tal saudosismo já se manifesta no primeiro ato, num velho piano e nas partituras em papel ao fundo da sala da casa de Sapper Morton (seriam aqueles mesmos objetos que estavam no apartamento de Deckard?), além da própria árvore morta que se torna um dos elementos instigantes na referida sequência e que virão a contrastar com todos os cenários tecnológicos pela frente – e é com a tecnologia que a principal parcela desse resgate de época também é feito. Vide a sequência em que K, passando pelas escadarias e corredores lúgubres do prédio onde mora, adentra seu cinzento apartamento e tem sua janta servida por Joi trajando vestes típicas dos anos sessenta e, pra completar o afável clima da ocasião, ao som de uma balada cantada por Frank Sinatra. Uma hora e tanto depois, quando K vaga pela desolação de Las Vegas e passa por gigantes estátuas femininas (que poderiam ser vistas como ícones pagãos), é no auditório do cassino, enquadrado como um abandonado templo do entretenimento americano de outrora, que a reverência ao passado encontra seu ápice: projeções holográficas de dançarinas dão cor e som ao local, interrompidas pelas representações virtuais de Elvis Presley e uma Marilyn Monroe surge imponente e ampliada no palco em sua icônica pose de musa – e quem diria que até o poder emocional de uma outra velha música ainda fosse capaz de remediar uma briga justamente por seu apreço? 

Com tantos méritos considerados, é admirável como Denis Villeneuve aproveita o extenso andamento da narrativa a favor da imersão do espectador nessa grande caixa de empatia que é o cinema, um reduto onde inúmeras memórias de outros se tornam nossas, sejam elas verídicas ou não, culminando em um misto de sentimentos e impressões particulares que nem mesmo a frívola artificialidade do mundo ou black outs poderão limar. Recordações preciosas capazes de instigar um ímpeto de ações e pensamentos como Blade Runner 2049 foi exímio em propor.



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