sexta-feira, 3 de março de 2017

Logan | CRÍTICA


Protagonizando mais filmes do que deveria, Wolverine adquiriu um status próximo da invencibilidade a julgar pelos tratamentos grandiloquentes que passaram pelas mãos de Bryan Singer e roteiristas desde que a série começou, lá no ano 2000, pouco aproveitando os ótimos personagens que integravam os X-Men em cada ocasião. Enquanto isso se pode atribuir à alta popularidade do personagem nas HQs da Marvel ou mais pela competência e do carisma radiante de Hugh Jackman no papel, a verdade é que, agora com Logan, as ressalvas dos filmes anteriores são remediadas em tempo de culminar no derradeiro e fascinante retrato de um herói que, nas dores físicas e emocionais, busca o prazer de sentir o peso da mortalidade.

O Logan de 2029 não é mais aquele todo onipotente com seu esqueleto de adamantium e com o fator de cura elevado que vinha a calhar na hora do combate. Com agilidade reduzida, encontramos um homem trôpego e praticamente alcoólatra que, mesmo assim, não deixa malfeitores escaparem ilesos, por mais que suas garras custem a se expandir e que leve alguns tiros até acertar, ou melhor, dilacerar alguém. Se isso certamente viraria artifício para piadinha numa produção Marvel Studios, aqui aparece como um elemento digno para se condoer pelo personagem, relegado a dirigir uma limousine e transportando passageiros variados noite e dia, garantindo aí dólares suficientes para bancar também o coquetel de remédios para um delirante Charles Xavier (Patrick Stewart) aos cuidados do albino Caliban (Stephen Merchant), escondidos num reduto improvisado na fronteira dos Estados Unidos com o México. Um abrigo que Logan pretende se desfazer o quanto antes e passar o resto dos seus dias em alto-mar, mas até lá, ele precisará levar a menina Laura (Dafne Keen) para um lugar específico prescrito por uma misteriosa mexicana, que tem em seu encalço os Carniceiros chefiados por Donald Pierce (Boyd Holbrook), ávido em querer por sua mão cibernética na garota e recolocá-la no lugar de onde não deveria ter fugido.


Se esta jornada surge relutante e exaustiva para o herói, com a sombra da morte pairando constantemente em seu encalço, por outro lado (e como em todo bom road movie), a estrada lhe provém uma revisão do significado de família que Logan viu perder várias vezes em décadas de vida estendida. Co-escrito pelo diretor James Mangold junto com Scott Frank e Michael Green (Alien: Covenant e Blade Runner 2049), o roteiro fornece aos seus atores um material que resulta num entrosamento magnético e divertido que não perde o encanto mesmo quando o principal objetivo do filme é se tornar o mais violento da saga. Sanguinolência das ótimas lutas a parte, é curioso notar como os roteiristas também colocam os personagens em posição de penitência diante das suas dificuldades, clamando a Deus por vezes como pouco foi feito nos filmes anteriores. Ora, se nas ocasiões anteriores os mutantes se colocavam como a dádiva da evolução por suas proezas, agora, ponderando seu contingente minguado, se questionam se nada mais são do que um defeito genético.

Dadas as limitações impostas, Hugh Jackman faz de Logan o personagem bruto que vai além do treino muscular pesado e dos dentes cerrados, testemunhando o herói cravar suas garras nos inimigos deixando um rastro de vísceras para trás, sem desmerecer seu drama conveniente sobre um homem que procura, acima de tudo, a própria resignação. Por sua vez, Patrick Stewart também faz bonito e dispõe, se não, sua melhor performance como Xavier. Da ocasional figura solene vista no passado, sempre de mente aberta para ouvir e aconselhar, o velho Professor X encontra-se amargurado, com aparência desleixada e à beira da demência, sendo triste vê-lo guiar a cadeira de rodas a esmo e repetindo frases aleatórias de comerciais, mas é recobrando a sanidade que Xavier volta a ser aquele homem de semblante bondoso e passa revigorar o elo entre Logan e Laura, que, por sua vez, também encanta com seu olhar arregalado e a fúria maior do que sua estatura. Dos rostos conhecidos, quem deixa a desejar é Boyd Holbrook que, mesmo destacado na série Narcos, aqui fica atrelado a um personagem que ameaça mais do que se prova.



Repetindo seu bom trabalho na condução das cenas de ação como visto nas boas partes de Wolverine: Imortal, Mangold eleva-se como diretor apresentando uma criativa decupagem nas principais sequências de luta, inspirando-se nas cores áridas do Western (além do importante trecho de Os Brutos Também Amam) e assim transpondo para sua fotografia que resulta em planos ágeis e sem pudores em mostrar ferimentos ou decapitações, destacando-se pra valer na ótima sequência de fuga na fronteira, nada econômica em seu design de som a julgar por tantos tiros, "snikts" de garras e pneus atritando contra o solo. Com Mad Max: Estrada Fúria fazendo escola, a influência também é ouvida na boa trilha de Marco Beltrami, repetindo efeitos sonoros graves que reverberam entre padrões de notas velozes nas cenas frenéticas, permitindo soar também músicas sublimes com uma gaita típica de Morricone combinada a um instrumental moderno, ecoando com suas tocantes composições de Os Indomáveis, onde James Mangold dirigira uma similar trama de paternidade relutante.

Na já saudosa despedida de Hugh Jackman e Patrick Stewart, fica a certeza de que todo o trabalho visto em Logan é um ótimo exemplo de como os ditos "filmes de super-herói" podem transitar por gêneros consagrados sem perder sua essência de entretenimento e que até mesmo deslizes expositivos (o inverossímil vídeo-institucional-denúncia num celular) ou até mesmo alguns problemas narrativos e visuais evidentes no terceiro ato, passam percebidos diante da emocionante experiência proporcionada. Assim dito na fala do protagonista, as histórias contadas nas revistas em quadrinhos podem até ter acontecido menos do que o esperado, o que não quer dizer que as mesmas não tenham sua importância para aquelas e aqueles dentro e fora da tela.


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