quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Demônio de Neon | CRÍTICA


Foi lá por 2011 que o dinamarquês Nicolas Winding Refn viu seu nome brilhar como os chamativos letreiros de luzes neon dos tantos cenários de vida noturna dos quais pegou o gosto em filmar em seus últimos filmes, um brilho que chamou a atenção de um público maior e não menos exigente no que se refere a produções bem fotografadas e com roteiros, digamos, pouco convencionais. Se a exultação da violência vista em Drive combinada com sua trilha sonora irresistível e um bom elenco eram o suficiente para que os cinéfilos passassem a acompanhar o trabalho do diretor com mais afinco, o que foi visto em Apenas Deus Perdoa acabou dividindo opiniões; uma predileção ao êxtase da imagem que se repete no escancaramento do cruel mundo da moda de Demônio de Neon.


Por onde passa, Jesse (Elle Fanning) chama a atenção de todos que olham para ela, com boas e (em maior escala) más intenções. Descoberta por um garoto aspirante a fotógrafo de moda, que mais quer é chamar atenção para si com suas fotos retratando a beleza da garota, a aspirante a modelo de dezesseis dezenove anos chegou há pouco tempo em Los Angeles mas, desde já, conseguiu se sobressair entre tantas outras jovens que fazem dietas sofríveis ou coisas persuasivas. Não por menos, as infames perguntas sobre estar "dormindo" com algum(a) poderoso(a) da área ou até mesmo ter feito várias cirurgias plásticas vem à tona logo em seu primeiro encontro com a maquiadora Ruby (Jena Malone) e outras modelos. 



A beleza natural de Jesse, porém, é magnética o suficiente e não demora para que fotógrafos e estilistas de renome tenham a não-tão-mais ingênua garota do interior como sua preferida das passarelas e ensaios luxuosos. Gente querendo um pouco dessa beleza não falta, assim como uma insana coragem para consumir tal inveja voraz.

Retratando a "cidade dos sonhos" com a fotografia crepuscular de Natasha Braier, é curioso notar a quase ausência de cenas diurnas ao passo em que Jesse imerge de vez no palco e nos bastidores da moda, sugerindo que, fora destes cenários, a garota que tanto irradiava brilho é justamente aquela que mais precisa da luz em meio a tantos abutres. Realmente, semelhanças com o filme de David Lynch surgem aqui e acolá na representação dos cargos hierárquicos do meio artístico e até mesmo a representação da inocência da protagonista tão logo tentada a experimentar do que é oculto.



Para Refn, mais tem ficado claro que o verbal é o de menos, a nota de rodapé de cada imagem extremamente composta nos mínimos detalhes que se preza a apresentar em cada desfile ou até mesmo em um necrotério. Se tinha vontade de enaltecer a beleza feminina ou condenar as injustiças do veio fashion, o filme descamba para o mau gosto com incidentes cuja única função é superar o "cru e visceral" proferidos lá em Cisne Negro.

Estiloso e pretensiosamente pervertido. Se isso não é o suficiente para resumir Demônio de Neon (The Neon Demon), NWR deixa claro que o dono da alcunha que leva o título é o mesmo que o assina.




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